PALAVRA DA DIRETORIA

160 anos do Consolador na Terra



Por Márcia Regina Colasante Salgado ( Maio/2017)


Eis que Jesus desce das esferas celestiais e anuncia aos primeiros mártires do Cristianismo primitivo, que quando a escuridão se fizesse mais profunda nos corações da Terra, com a utilização de todos os progressos humanos para o extermínio, para a miséria e para a morte, ele derramaria sua luz e pelas suaves revelações do Consolador seu verbo se manifestaria novamente no mundo(1).
Assim, sob as bênçãos das novas claridades do século XIX, preparado que fora pelos prepostos de Jesus com a vinda dos grandes filósofos iluministas do século XVIII, que estabeleceram os princípios de uma religião natural fundamentada na razão humana(2), Kardec, em 1854, ouviu falar pela primeira vez das mesas girantes. Mas, foi somente em maio de 1855 que ele concordou em assistir às experiências que se realizavam na rua Grange-Batelière, na casa da senhora Plainemaison. Imediatamente, Kardec percebeu que estava diante da revelação de uma nova lei (3). Dotado de notável inteligência, espírito crítico e racional, o professor Rivail (nome de batismo de Kardec) não podia aceitar a ideia de uma mesa falante, que respondesse às questões formuladas através de um código pré-estabelecido. Nas sessões realizadas na casa do Sr. Baudin, Rivail começou a formular uma série de perguntas metodicamente preparadas sobre filosofia, psicologia e sobre a natureza do mundo invisível. Mais tarde, o codificador observou que “aquelas comunicações formavam um conjunto e tomavam as proporções de uma doutrina”(3),vindo a desenvolvê-las e completá-las, constituindo-se as mesmas na base de O Livro dos Espíritos, publicado em 18 de abril de 1857.
Em abril de 1856, através da médium Srta. Japhet, em casa do Sr. Roustan, Rivail recebeu as primeiras revelações de sua missão. Em 17 de junho de 1856 o Espírito de Verdade, referindo-se a O Livro dos Espíritos, antecipou que este seria apenas o primeiro trabalho que haveria de tomar proporções que o professor Rivail estava longe de suspeitar. O Espírito de Verdade fizera alusão às obras que deveriam ser publicadas depois, e que iriam formar a Codificação(3). De fato, após a publicação de O Livro dos Espíritos seguiram-se O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868) constituindo-se essas nas principais obras espíritas.

Aplicando o método experimental Kardec procedeu da mesma forma que as ciências positivas de então. Fatos de uma nova ordem, que não puderam ser explicados pelas leis conhecidas apresentaram-se. Observando, comparando e analisando, o codificador chegou às causas através dos efeitos deduzindo suas consequências, procurando encontrar aplicações úteis. O Espiritismo é, dessa forma, uma ciência de observação que tem por objetivo o conhecimento das leis do princípio espiritual. “Ao elemento material veio acrescentar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual, eis os dois princípios, as duas forças vivas da natureza”(4). Através da observação dos fatos, o Espiritismo legou-nos o conhecimento do mundo invisível, da sobrevivência da alma após a morte corporal, da reencarnação e da natureza das relações que envolvem os seres encarnados e desencarnados, apontando-nos as profundas transformações morais que hão de se estabelecer sobre a face da Terra e as suas consequências, quando a humanidade, já mais amadurecida, buscar vivenciar esses conhecimentos. Há 160 anos, portanto, o Espiritismo combate o materialismo ainda vigente em nosso planeta.
Em nossos dias, há inúmeras evidências, estudadas no meio acadêmico, de que a consciência (Espírito), não é produto da atividade cerebral, que existe independentemente do cérebro e sobrevive após a morte do corpo, apontando para a existência de outros níveis de realidade que não a física(5). Se a ciência atual é materialista, é porque está incorrendo no mesmo comportamento dogmático que a religião apresentou nos séculos passados, negando essas evidências que demonstram a existência do Espírito e as leis que regem a relação entre o mundo material e o espiritual. Entretanto, dia virá em que a própria ciência descortinará o elemento espiritual.
Alicerçado nas leis naturais e na razão, o Espiritismo marca uma nova era para a humanidade na medida em que traz explicação para a dor, para o sofrimento e aponta o verdadeiro sentido da vida. Como seres espirituais, estamos na Terra para a aquisição de nosso progresso moral.
Revivendo os princípios de Jesus, sob a luz da razão, convidando-nos ao exercício do perdão e do amor fraternal, o Espiritismo traça o caminho que nos conduzirá à vivência do amor incondicional, à aquisição da paz interior e felicidade tão almejada, indicando que o mundo fraterno, no qual aspiramos viver, se materializará quando transformarmo-nos e extinguirmos o egoísmo que faz morada nas profundezas de nossa alma. É uma lenta, mas incessante e gloriosa marcha do homem na direção do amor incondicional. Confiemos! Na direção dessa jornada está Jesus, o mestre do amor!

Referências
1 - Xavier FC. Ditado pelo espírito Emmanuel. Há dois mil anos. 17a ed. Rio de Janeiro: FEB; 1982 p. 353-4.

2 - Nobre M. A contribuição de Kardec à ciência. In: Salgado MRC, organizadora. Saúde Integral: uma interação entre ciência e espiritualidade. 1a ed. São Paulo: AME-Brasil Editora; 2013. p.13-30.

3 - Kardec A. Obras póstumas. 2a ed. São Paulo: Livraria Allan Kardec Editora; 1979. Segunda parte; p. 215- 326

4 - Kardec A. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. 1a ed. São Paulo: Livraria Allan Kardec Editora; 1979. Capítulo 1, Caracteres da revelação espírita. p. 25-61.

5. - Beauregard M, et al. Manifesto for a post-materialist science. Explore: The Journal of Science and Healing [Internet]. 2014 [citado 23 apr. 2017];10(5):272-4. Disponível em: <>. < />

Márcia Regina Colasante Salgado é tesoureira da Associação Médico-Espírita do Brasil