PALAVRA DA DIRETORIA

Ao contrário do que ocorria há poucas décadas atrás, o tema suicídio tem sido matéria de amplo debate nas mídias sociais. Os índices mundiais são alarmantes e chamam a atenção.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, todos os anos, perto de 800.000 pessoas tiram deliberadamente sua própria vida, sendo que o suicídio foi a segunda principal causa de morte no mundo em 2015, na faixa etária compreendida entre 15 a 29 anos de idade. É um fenômeno global e mais de 78% dos suicídios ocorreram nos países de baixa e média renda (1). No Brasil não é diferente! De acordo com o primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio (2) no período de 2011 a 2015, foram registrados 55.649 óbitos por suicídio.
Observa-se com grande preocupação o aumento das taxas de suicídio de crianças e adolescentes no Brasil. De 2000 a 2015, os suicídios aumentaram 65% entre pessoas com idade de 10 a 14 anos e 45% de 15 a 19 anos — mais do que a alta de 40% na média da população (3). Sabe-se que o risco de suicídio é bem estabelecido, principalmente, nos países de alta renda, entre os portadores de desordens mentais (depressão e transtornos devido ao abuso de álcool), mas muitos suicídios ocorrem em momentos de crise e de forma impulsiva, devido à incapacidade de se lidar com o estresse da vida diária, que surge em consequência de dificuldades financeiras, ruptura de relacionamentos ou enfermidades e dor crônica, entre outras causas. Grupos vulneráveis que experimentam discriminação, também, apresentam alto índice de suicídios (1).
Nas últimas duas semanas de abril constatamos com profunda tristeza a notícia de três casos de suicídio de estudantes de escolas de elite da capital paulista, o que nos leva a pensar sobre as possíveis causas para essas ocorrências. Questões sobre sexualidade, bullying, bom desempenho escolar e dificuldade em lidar com as frustrações são conflitos, que surgem na adolescência, e podem funcionar como um gatilho para o jovem que não consegue enxergar uma perspectiva para a sua vida.
Independentemente da faixa etária, do sexo, da raça e da cultura em que registramos os casos de suicídio é preciso analisar cuidadosamente essa incapacidade de lidar com o estresse da vida diária e o sofrimento que o acompanha. Para muitas criaturas na Terra, o materialismo e o hedonismo dominam o cenário de suas existências, sendo a vida terrena a única realidade plausível. O corpo é tudo, fora dele nada mais existe. “Não sendo senão matéria, o homem só enxerga como reais e desejáveis os gozos materiais”(4), exatamente o oposto que a certeza da perpetuidade do homem, enquanto ser espiritual lhe traz, fortalecendo-o para enfrentar e superar todos os revezes da vida, transitórios diante da eternidade. É assim que a ideia do nada após a morte levou o cientista britânico David Goodall, radicado na Austrália, aos 104 anos de idade, optar pelo suicídio assistido na Suíça, por não aceitar a deterioração da sua qualidade de vida. Ledo engano visto as inúmeras evidências que têm sido registradas sobre consciência e espiritualidade levando a conclusão de que a consciência não é produto da atividade cerebral e que, portanto, sobrevive após a morte do corpo. 5
A incredulidade e as ideias materialistas conduzem à covardia moral e são os maiores incitantes ao suicídio6 enquanto que a espiritualidade, considerada aqui na definição de Koenig, “como busca pessoal pela compreensão das questões últimas acerca da vida, do seu significado, a da relação com o sagrado e transcendente [...]”(7) é fator de proteção ao suicídio(8).
Enquanto filosofia espiritualista, o espiritismo amplia nossa visão, pois além de apresentar a imortalidade da alma nos ensina que a vida corpórea e a vida espiritual são dois modos de existência que se alternam para a realização do progresso moral do indivíduo, dando sustentação para que enfrentemos as lutas e os reveses inerentes à vida na Terra. Modificando a visão que temos da vida auxilia-nos na aquisição da paciência e resignação, que naturalmente nos afastam da ideia do suicídio (6). Em última instância, o espiritismo nos lega a compreensão do sentido de nossas existências, e nos dá a coragem moral necessária para entender e enfrentar a dor e o sofrimento, tão necessários, ainda, como ferramenta de transformação do homem na aquisição das virtudes excelsas, que nos conduzirão à vivência do amor incondicional.

Referências
1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Suicide. Key Facts. Disponível em: . Acesso em: 01 maio 2018.
2. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. Suicídio: saber agir e prevenir. Boletim Epidemiológico n. 30, v. 48, 2017. Disponível em: . Acesso em: 01 maio 2018
3. ESTARQUE, M. Suicídio em adolescentes avança, e casos recentes mobilizam escolas em São Paulo. Folha de São Paulo, São Paulo, 24 abr. 2018. Disponível em: . Acesso em: 01 maio 2018.
4. KARDEC, A. Obras póstumas. 2a ed. São Paulo: Livraria Allan Kardec Editora, 1979. p. 152.
5. BEAUREGARD, M et al. Manifesto for a post-materialist science. EXPLORE: The Journal of Science and Healing, New York, v. 10, n.5, p. 272-274 Sep./Oct. 2014. Disponível em: . Acesso em 07 maio 2018.
6. KARDEC, A. Bem-aventurados os aflitos. In: KARDEC, A. O evangelho segundo o espiritismo. 1a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2008. Capítulo V, item 14, O suicídio e a loucura, p. 112-125.
7. KOENIG, HG; MC CULLOUGH, M.E; LARSON, D.B. Handbook of Religion and Health. New York: Oxford University Press, 2001.
8. LOUREIRO, A.C.T et al. Espiritualidade como fator de proteção ao suicídio. Revista Brasileira de Psicologia, Salvador, v.2, n.2, p. 33-40, 2015.

Márcia Regina Colasante Salgado é médica pneumologista e tesoureira da AME-Brasil