Uma nova Medicina para um novo milênio

De 1997 a 2007, a Associação Médico-Espírita do Brasil realizou, a cada dois anos, o seu congresso, que ora recebe a denominação de Mednesp, por se tratar de evento nacional, ora Medinesp, por estar acoplado ao internacional, reunindo de 850 a 1.000 pessoas, interessadas nos temas de saúde e espiritualidade. Nestes 10 anos de congressos e 12 de existência da AME-Brasil, fundada em 17 de junho de 1995, foi possível acompanhar a trajetória do Movimento e aferir o progresso alcançado, principalmente a partir do último evento realizado em junho, em São Paulo.

O amadurecimento ficou evidente nos temas apresentados pelos 41 oradores brasileiros, com trabalhos científicos e teses defendidas nas universidades, aliando saúde e espiritualidade. Amadurecimento também na postura dos militantes das AMEs, claramente expresso nos assuntos discutidos na assembléia geral. A estrutura da AME-Brasil permite isso, porque todas as associações têm peso igual nas decisões e podem se expressar livremente.


É claro que as AMEs ainda são frágeis; apresentam-se como plantas tenras que estão à procura do sol do desenvolvimento. Enganam-se os que pensam que o Movimento Médico-Espírita envolve multidões; quem se propõe a dirigir tem de amargar com a defecção de muitos e, não raras vezes, com o peso da solidão, mas os que têm ideal sabem que vale a pena perseverar.
A proposta do Movimento Médico-Espírita é de mudança de paradigma. Não é apenas a de colocar em suas bases o estudo e a pesquisa da alma, a fim de ultrapassar a Medicina do corpo praticada atualmente, mas, sobretudo, a de humanizar o atendimento à saúde, incentivando o médico à vivência da solidariedade e da humildade em seu raio de ação.


O último congresso permitiu que essa proposta fosse discutida também com os oradores do exterior, o que favorece a amplitude de idéias e ações. Os médicos espíritas estão convictos de que não haverá paz para a humanidade enquanto não houver aliança definitiva entre Ciência e Religião. Com o paradigma médico-espírita, propõem essa união entre Fé e Razão, não apenas do ponto de vista teórico, mas, sobretudo, prático.

Chegou o momento em que a religião deve deixar de ser apenas um rótulo, uma bela fachada. Conscientes disso, os médicos espíritas sabem que é chegada a hora de viver o espírito de serviço, proposto por Jesus, que inclui sabedoria e amor – molas mestras do novo paradigma a ser implantado no terceiro milênio.

Que Deus abençoe seus bons propósitos!

Marlene Nobre

 

Entrevistas Medinesp 2007

Carlos Eduardo Sobreira Maciel
Maria Irma Hadler Coudry

Sérgio Felipe de Oliveira
Erlendur Haraldsson
Melvin Morse

Muito além dos neurônios

Muito além dos neurônios foi o título do segundo painel ocorrido no primeiro dia do Medinesp, o congresso internacional da Associação Médico-Espírita do Brasil, realizado de 7 a 9 de junho, no Maksoud Plaza, na capital paulista. Nele, um dos palestrantes, Carlos Eduardo Sobreira Maciel, especialista em Psiquiatria, do corpo clínico do Hospital Espírita André Luiz, de Belo Horizonte (MG), membro do Grupo de Estudo de Espiritismo e Psiquiatria da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais (AME-MG) e vice-presidente da entidade, abordou o tema Neurônios-espelho, autismo e marcas espirituais, tratado na entrevista abaixo:

Neurônios-espelho, autismo e marcas espirituais

Ismael Gobbo
  
Folha Espírita - A mídia científica está dizendo que as recentes descobertas sobre os neurônios-espelho são um dos achados mais importantes das neurociências nos últimos tempos. Isso é verdade?
Carlos Eduardo Sobreira Maciel - De fato, a descoberta dos neurônios-espelho constitui um avanço muito importante no sentido de termos agora alguma resposta mais profunda no tocante à causalidade do autismo. Todavia, como a descoberta diz respeito apenas à causalidade biológica, para a visão médico-espírita ainda é algo muito restrito.
  
FE - Alguns cientistas até ousam dizer que essas células irão fazer pela Psicologia o que o DNA fez pela Biologia. Por quê?
Maciel - Eu reafirmo o que disse anteriormente, que a descoberta é importante. Acho que ela esclarece muito, em nível celular, sobre a relação entre os indivíduos, porque nos possibilita identificar as emoções, os atos e as intenções alheias, colocando-nos numa relação empática com o outro. Eu acredito que isso pode servir de subsídio para a Psicologia e para muitos estudos, mas considero ainda muito cedo para compará-la com o que hoje se sabe do DNA.
  
FE - O que são neurônios-espelho?
Maciel - Neurônios-espelho são um conjunto de células cerebrais que têm a função de refletir no cérebro do observador um ato realizado por outro indivíduo. Por exemplo: essas células são ativadas em meu cérebro quando eu pego um copo d'água. As mesmas células são ativadas em alguém que me observa. Então elas espelham no cérebro de outro indivíduo, o observador, aquilo que estou fazendo. Portanto os neurônios-espelho nos permitem uma compreensão visceral daquilo que observamos, não só as ações, mas também as emoções.
  
FE - O que é autismo?
Maciel - O autismo é um transtorno invasivo do desenvolvimento que se manifesta antes dos 3 anos de idade. Ele se caracteriza por um desenvolvimento anormal e por alterações em três áreas: interação social, comunicação e comportamento.
  
FE - Por que ele acontece?
Maciel - A maioria dos casos de autismo tem causa desconhecida. Alguns decorrem de condições médicas, dentre as quais infecções intra-uterinas como a rubéola congênita, doenças genéticas como a síndrome do x-frágil, e a síndrome fetal alcoólica provocada pela ingestão de álcool pela mãe durante a gravidez. Essas são as mais comuns. Todavia, as causas na maioria das situações são desconhecidas, um verdadeiro mistério para a ciência.
  
FE - Existe tratamento para o autismo?
Maciel - Do ponto de vista médico podemos dizer que não há um psicofármaco específico para tratar o autismo. Os medicamentos utilizados são ministrados para controlar as agitações psicomotoras e as auto e heteroagressões produzidas pelos indivíduos autistas. O autismo é uma doença muito complexa que requer uma abordagem multidisciplinar envolvendo educadores, psicólogos e terapeutas ocupacionais, visto que requisita atenção para as questões educacionais e de socialização. Como médicos espíritas, sabemos da importância da terapêutica complementar espírita que a Doutrina nos recomenda. Nessa patologia, via de regra, há severos débitos passados com conseqüente obsessão espiritual, o que indica o tratamento desobsessivo, aplicação de passes e uso da água fluidificada.
  
FE - E o que são as marcas espirituais sobre as quais você fala?
Maciel - Essa é uma terminologia genérica que utilizamos para tratar do assunto ao nos referirmos à causalidade mais profunda do autismo. Encontramos nas obras da literatura médico-espírita esclarecimentos sobre as causas e o processo de formação dos sintomas, o que nos proporciona uma nova leitura dos sintomas autísticos, em que cada indivíduo é visto sob a ótica reencarnacionista. Importante lembrar aqui o processo de formação do autismo a partir do momento da reencarnação, quando se vislumbra a consciência do indivíduo marcada pela culpa, acarretando lesões no seu perispírito e conseqüente impressão na formação do sistema nervoso do novo corpo e os sintomas autísticos advindos dessa impressão.
  
FE - Seria uma deformação perispirítica?
Maciel - São duas as possibilidades de formação do autismo. Uma delas, como já disse, seria o reencarnante que sofre o efeito das marcas que traz no perispírito. Esses danos perispirituais levam às lesões do sistema nervoso, que, por sua vez, desencadeiam as manifestações de natureza autista. Nesse caso o indivíduo não consegue se comunicar por causa de deformações ou lesões nos corpos astral e físico. A outra possibilidade seria esse espírito, marcado com a consciência da culpa, temendo uma reencarnação compulsória na qual colherá os efeitos de faltas passadas. Segundo os mentores da associação, choques frontais e desvios graves do passado provocam esse sentimento de culpa. Nessa situação, o espírito rejeita a reencarnação, provocando o autismo. Ocorre um severo processo de auto-obsessão por abandono consciente da vida, um auto-encarceramento orgânico. Nesse caso, mesmo não havendo uma lesão direta do perispírito, a rejeição à reencarnação e a recusa à comunicação
danificam o cérebro.
  
FE - Então o autismo pode ser considerado uma marca espiritual?
Maciel - Sem dúvida, as raízes desse comportamento são encontradas em tempos remotos vividos pelo espírito milenar. Segundo Bezerra de Menezes, no livro Loucura e Obsessão, muitos espíritos buscam na alienação mental, através do autismo, fugir do resgate de suas faltas passadas, das lembranças que os atormentam e das vítimas que angariaram nesse mesmo passado.
  
FE - Há casos de autistas que alcançaram a cura total?
Maciel - É uma situação muito rara. Mas há casos na literatura de pacientes que alcançam uma certa autonomia e uma melhora surpreendente, inusitada e muito incomum. Há inclusive livros publicados por esses autistas. Mas há que se ter cuidado com o diagnóstico, porquanto há casos rotulados de autismo que na realidade não o são. O autismo é uma doença complexa até no sentido de se fazer o diagnóstico diferencial com outras doenças.
  
FE - Quais os livros que os interessados poderiam consultar para melhor conhecer o autismo?
Maciel - Recomendo especialmente o livro de Hermínio Miranda Autismo - Uma Leitura Espiritual.
  
FE - Qual a mensagem que você deixaria aos pais e familiares espíritas e não espíritas que convivem com autistas e buscam uma resposta para o problema?
Maciel - Eu diria que o mais importante na lida com esses pacientes é não se esquecer que eles são nossos semelhantes bem profundos, com nível evolutivo bem próximo ao nosso. Segundo os mentores da Associação Médico-Espírita, uma das poucas diferenças que há entre nós e eles é que estamos num nível um pouco melhor de boa vontade, mas nossas faltas são praticamente as mesmas. Temos, portanto, a bendita oportunidade de ocupar, temporariamente, a posição de "cuidadores". Eu enfatizaria aos pais a importância do exercício da tolerância, da empatia, da compreensão e da paciência com seus filhos, tendo em vista que o que lhes falta não nos pode faltar. Temos de nos colocar na posição deles a fim de compreendê-los e amá-los.
  
          
"Os pais de autistas devem exercitar a tolerância,   empatia, compreensão e paciência com seus filhos, tendo em vista que o que   lhes falta não nos pode faltar. Temos de nos colocar na posição deles a fim   de compreendê-los e amá-los"

(voltar para entrevistas)
Linguagem, afasia, cérebro e mente
Cláudia Santos  
Professora livre-docente (2002) do Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (Campinas - SP) na área de Neurolingüística, Maria Irma Hadler Coudry tem pós-doutorado (1993-1994) na University of Newcastle, Department of Speech, Inglaterra. Também participou de estágio clínico em Neurolingüística na Universidade Livre de Bruxelas (1982 e 1984). Coordenadora adjunta, de 2001 a 2005, do curso de Fonoaudiologia da Unicamp, produto de parceria entre a Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), é coordenadora de Desenvolvimento Cultural da Unicamp desde junho de 2005. Docente co-responsável pelo Centro de Convivência de Afásicos (CCA/IEL/FCM/Unicamp) desde 1989, é docente responsável pelo Centro de Convivência de Linguagens (CCazinho/IEL/Unicamp) desde 2004.
No Medinesp, participou, como palestrante, da conferência Linguagem, Afasia, Cérebro e Mente, falando da sua experiência na universidade. "A linguagem, o cérebro e a mente em funcionamento animam e iluminam a dinâmica do Centro de Convivência de Afásicos, grupo que convive semanalmente, imerso na sociedade em que vivemos, com diferenças e aproximações, no exercício da intersubjetividade e da subjetividade própria. As práticas sociais promovidas no local se dão por meio da linguagem (oral e escrita) em que contam a gestualidade, a percepção, a cultura e a história de cada um. São práticas com e sobre a linguagem das quais participam pessoas que falam, que pouco falam, que não falam, que falam muito; que escrevem, que pouco escrevem, que nunca aprenderam a escrever. Mas todas elas sabem muitas coisas e, de alguma maneira, fazem e dizem coisas que interessam a todos", observa.

Folha Espírita - Existe uma área do cérebro mais responsável pela linguagem?
Maria Irma Hadler Coudry - As áreas anteriores do cérebro são responsáveis pela parte motora da linguagem. Mas existem outras além dela, visto que a linguagem não é só motora. Se a expressão verbal é afetada, outras coisas podem ser rearranjadas para que a pessoa se comunique.
  
FE - Existem partes do nosso cérebro específicas para cada tipo de linguagem?
Maria Irma
- Sim, o cérebro tem regiões específicas para a linguagem falada, escrita, para a visão; só que essas áreas se comunicam, se relacionam. Então, quando falta alguma coisa em uma área, outros arranjos podem ser feitos, e isso é que é bacana.
  
FE - A comunicação é uma realidade de convivência entre os seres humanos. Quando algum problema físico afeta essa ferramenta, que conseqüências traz?
Maria Irma
- A linguagem não é só comunicação. Quando você a usa, não o faz apenas para se comunicar. Você a utiliza para mudar a atitude, para humilhar, elogiar alguém. É uma forma de ação, é mais que estabelecer uma comunicação, passando alguma informação. Quando uma pessoa tem afasia, por exemplo, essa possibilidade de se comunicar através da linguagem é afetada. Mas o bacana é que existem outras maneiras de se comunicar, inclusive de forma não verbal. É possível mostrar, olhar, apontar, fazer desenhos, entre outras.
  
FE - O que é afasia?
Maria Irma
- Uma doença decorrente de um episódio neurológico com lesão. Normalmente, é decorrente de um AVC, de traumatismo crânio-encefálico. Tem sempre uma causa neurológica, com efeitos na linguagem, percepção e gestualidade. Há várias formas de afasia. Algumas afetam a interpretação, aquilo que alguém fala e eu não consigo entender. Mas, basicamente, ela afeta a expressão verbal. Freud diria que a afasia é uma modificação funcional, quer dizer, ela provoca uma modificação funcional. Eu não consigo mais dizer de uma maneira, eu digo de outra. Não costumamos repetir coisas, porque temos mecanismos de inibição. Nesse caso, posso repetir coisas sem inibição, porque um mecanismo neurodinâmico foi afetado neurologicamente. O pensamento não é diretamente afetado. Mas se a pessoa não for tratada e ninguém conversar com ela, pode ficar alienada. O tratamento existe do ponto de vista da linguagem, da percepção, do gesto.
  
FE - Quais profissionais trabalham com o tratamento do afásico?
Maria Irma
- O terapeuta trata da parte mais motora, o fonoaudiólogo da linguagem. Mas, no Brasil, tem ocorrido de forma recente a aproximação muito fértil e interessante entre o lingüista e o fonoaudiólogo. São áreas que se complementam. Neurolingüista tem de ter formação forte em lingüística e também na área médica para compreender o fenômeno. O fonoaudiólogo trabalha mais com a patologia da linguagem, e o lingüista, a linguagem. E essa dobradinha tem dado muito certo. No nosso curso de Fonoaudiologia da Unicamp fizemos essa inter-relação. A Faculdade de Ciências Médicas e o Instituto de Distúrbios da Linguagem, que têm uma parceria para conduzir esse curso de Fonoaudiologia. Isso é inédito no Brasil desde 2002. Temos de trabalhar em equipe multidisciplinar para dar conta de um assunto tão complexo que é a linguagem.
  
FE - O que pode causar a afasia?
Maria Irma
- Pressão alta, sedentarismo e obesidade criam condições favoráveis para um derrame, um acidente vascular. Temos de manter o corpo e a mente em forma, não? O tecido lesado não se reconstitui, mas é bom lembrar que outras áreas podem suprir aquela área que foi lesada, porque elas são inter-relacionadas. Por um lado você tem uma fatalidade, que é a lesão, e por outro a plasticidade cerebral, a força criadora da linguagem do sujeito.
  
FE - Quais caminhos você considera mais corretos para se trabalhar com um afásico?
Maria Irma
- Se eu sei que a pessoa está com problemas para escrever, não vou dar um ditado para ela, sei onde ela vai errar. Não é dessa forma que vou restituir a escrita dela. Também não vou ficar fazendo ela repetir sílabas. Isso não exige nada do sujeito. No Centro de Convivência de Afásicos (CCA) da Unicamp lemos jornais, revistas, discutimos as manchetes, vamos a exposições, usamos o cérebro. Isso é restaurador. Trabalhamos o raciocínio, o contar, o falar, o comentar, tudo que se faz com a linguagem. Como introduzimos uma pessoa no mundo da escrita? A partir de seu próprio mundo, que depois se amplia.
  
FE - Como é o trabalho no Centro de Convivência de Afásicos na Unicamp?
Maria Irma
- Ele tem a concepção da linguagem interativa, baseada na interlocução. Muita gente já começou a trabalhar seguindo o nosso modelo, que é mais humano, mais social.
  
FE - Quais os resultados desse trabalho?
Maria Irma
- Nosso centro de convivência tem efeito terapêutico também, porque a pessoa passa a falar com as condições que tem, a conviver mais socialmente, não se deprime, não se isola, recupera a sua função na família. Ela passa a ter um outro astral. Todos convivem com pessoas diferentes e isso é ótimo. Temos desde um pedreiro que nunca foi à escola até um professor da Unicamp, que ficou afásico. Reunimo-nos uma vez por semana durante duas horas, e cada um dos nossos sujeitos tem uma fonoaudióloga com ele. E a família, que é fundamental nesse trabalho, participa e dá continuidade ao trabalho em casa. Acompanhamos não só o paciente, mas a relação que tem com os familiares.
  
FE - O que você recomenda para os profissionais que lidam com afásicos?
Maria Irma
- Em geral, o neurologista sempre indica uma fonoaudióloga para tratar dos afásicos. A presença do lingüista nesse trabalho é algo muito novo e pouco representativo na realidade. Por isso, digo sempre aos fonoaudiólogos que eles devem estudar lingüística, a linguagem. É preciso conhecer o funcionamento da linguagem em condições normais para poder ajudar quem está com problemas. O paciente tem de melhorar de alguma forma. Se ele está num bom tratamento, ele sempre melhora.
  
FE - E para os familiares dos pacientes?
Maria Irma
- Há pacientes, por exemplo, que tiveram três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e se comunicam com o pouco de linguagem que têm. Com gestos do corpo, assovios. Eles cantarolam. É preciso ter paciência com essas pessoas. Pacientes neurológicos demandam tempo. Não existem conquistas rápidas, mas elas são definitivas, e há saltos qualitativos nessas conquistas.
  
Informações sobre o Centro de Convivência de Afásicos da Unicamp pelo telefone (19) 3521-1537.
  
          
"É preciso ter paciência com essas   pessoas. Pacientes neurológicos demandam tempo. Não existem conquistas   rápidas, mas elas são definitivas, e há saltos qualitativos nessas   conquistas"

(voltar para entrevistas)

Bases na integração cérebro-mente-corpo-espírito
Sérgio Felipe de Oliveira

Matéria publicada na Folha Espírita em julho de 2007

 

Cláudia Santos

   O mestre em Ciências pela USP Sérgio Felipe de Oliveira desenvolve estudos sobre a glândula pineal, estabelecendo relações com atividades psíquicas. Realiza trabalhos para a Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP) e possui a clínica Pineal Mind, onde faz seus atendimentos e aplica suas pesquisas. No Medinesp, ele encerrou o primeiro painel da manhã do primeiro dia, após a abertura, com Marlene Nobre, sobre os 150 anos em busca da integração cérebro-mente-espírito, e os oradores internacionais Erlendur Haraldsson e Melvin Morse. Após sua apresentação, ele falou sobre o tema:

Folha Espírita - Existem pesquisas que comprovam a integração entre cérebro-mente-corpo-espírito?

Sérgio Felipe de Oliveira - Existe uma divisão na ciência. Existem os organicistas que acreditam que a mente, o psiquismo, a alma são secreções do cérebro. Mas existe uma tendência, mesmo na Medicina, a considerar que o ser humano é composto por sistemas, que interagem entre si. O biológico, psicológico, social e espiritual. Estas questões referentes à integração de sistemas não vieram por comprovação científica, mas por uma questão muito própria da Medicina. Ela não é exatamente uma ciência, como é a Física, Química, Biologia, que você tem um fato que você detecta ou vê ao microscópio e configura que aquilo é uma verdade. A Medicina tem um compromisso com o paciente e ele, por ser humano, integrado à sociedade, possui algo mais do que aquilo que se possa ver no microscópio. Então, isso foi um consenso junto à Organização Mundial de Saúde (OMS) de forma que o ser humano passa a ser visto do ponto de vista biopsicosocioespiritual. No que diz respeito, por exemplo, à Psiquiatria, que lida muito com esse universo da relação entre mente e cérebro, a Associação Americana de Psiquiatria trouxe uma contribuição muito interessante, quando trabalhou o DSN4, o manual de estatística de desordens mentais, que coloca uma nova forma de fazer um diagnóstico. O diagnóstico médico não pode estar restrito ao universo orgânico. Precisa da abertura para outras possibilidades, psíquicas e, inclusive, espirituais. Em termos de comprovação científica eu não diria, mas de encaminhamento filosófico do raciocínio médico, acho que já existe essa abertura.

FE - O que a mediunidade tem a ver com tudo isso?

 

Sérgio Felipe - Ao se falar em mediunidade, há de se admitir a existência do mundo espiritual, de vida após a morte. A mediunidade como fenômeno já é entendida pela Medicina como uma realidade a ser estudada. Em Medicina se chama estados de transe, também existe o termo possessão quando é uma doença, no sentido de que é uma mediunidade patológica. Isso ainda não está muito claro. Abre-se a porta, mas não se sabe o que vamos encontrar além dessa porta, do ponto de vista de raciocínio médico-científico.

FE - A Medicina não deveria estudar a mediunidade?

Sérgio Felipe -
Não digo que deveria, mas, formalmente, ela se coloca nessa obrigação. O protocolo de qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde, que considera a parte espiritual, diz que a Medicina precisa pesquisar mais detalhadamente o que representa esse universo espiritual.

FE - Como estamos nesse ponto?

Sérgio Felipe
- No umbral da porta.....(risos)

FE - O que poderíamos dizer que há no mundo hoje em termos de pesquisas?

Sérgio Felipe -
Se você considerar somente as pesquisas indexadas ou oficiais, tem muita coisa entre a relação entre Medicina e religião, prece, meditação, mas um questionamento sobre a vida após a morte temos pouco. Talvez a contribuição do Ian Stevenson sobre reencarnação e vida após a morte, mas, em termos de consenso, há uma certa dificuldade de espiritualidade...Do ponto de vista factual, existe vida após a morte, existe dificuldade...Eu tenho visto nos bastidores da ciência medo dos cientistas falarem sobre isso, embora tenham a convicção de que haja essa questão. É uma falha de conhecimento metodológico da ciência e da Medicina. Falha na formação filosófico-metodológico-científica do médico e do cientista.

FE - Ele estaria preparado para cuidar só da morte?

Sérgio Felipe -
Como o materialismo não teve prova científica, ser materialista é uma convicção pessoal e não um argumento da ciência. Normalmente esses cientistas tomam como argumento da ciência...Isso é uma falha de incompreensão metodológica da ciência.

FE - O que temos de novidade sobre a glândula pineal?

Sérgio Felipe -
Tenho procurado entender o significado da glândula pineal no contexto da anatomia e fisiologia do organismo. Porque a glândula não é somente uma glândula, mas um órgão sensorial. Sendo órgão sensorial, onde está o sensor? É uma glândula envolvida com a sexualidade e ao mesmo tempo com a sensitividade. É uma glândula espiritual, mas que conecta o corpo ao mundo biológico. Então, é um ponto de encontro de tantas funções... Acho que os avanços mais interessantes que têm ocorrido em pineal, aí sim do ponto de vista formal, científico, são os estudos da pineal como relógio, em cronobiologia, que podem levar a Medicina à utilização de outros tipos de terapia, como fototerapia, manipulação de ciclos de sono, etc, como alternativa aos medicamentos químicos. Agora, do ponto de vista espiritual, não há pesquisa oficial sobre o assunto. Existem trabalhos dos hindus, mesmo daqueles radicados nos EUA, em centros e grupos universitários. Existem avanços interessantíssimos na compreensão disso, extraídos a partir dos conhecimentos milenares hindus.

(voltar para entrevistas)

A reencarnação existe’ – Erlendur Haraldsson

Giovana Campos 

Erlendur Haraldsson fez cursos de Filosofia nas Universidades de Edinburgo e Friburgo (Alemanha), curso de Psicologia na Universidade de Friburgo e na Universidade de Munique, onde obteve o diploma em Psicologia (1969). Também passou por estágio em Psicologia Clínica na Universidade da Virgínia, obteve o título Ph.D. na Universidade de Friburgo (1972) e foi pesquisador associado da Sociedade Americana de Pesquisas Psíquicas, professor do Departamento de Psicologia da Universidade da Islândia e é professor emérito da mesma universidade desde 1999. Autor de artigos e livros sobre a sobrevivência do espírito e reencarnação, no Medinesp proferiu duas palestras: Crianças que falam sobre vidas anteriores e Visões no leito de morte. E é sobre elas que ele falou à Folha Espírita:

 Folha Espírita – Professor Haraldsson, um de seus temas durante o Medinesp foi Crianças que falam sobre vidas anteriores. Como você se interessou pelo tema?

Erlendur Haraldsson
Já me interesso pelo assunto há alguns anos, desde que conheci o professor Ian Stevenson, da Universidade da Virgínia (EUA), mas comecei a estudar cientificamente esse tema no final dos anos 80. Primeiramente estudei um grupo de 60 crianças no Sri Lanka e, em 2000, fui a um país diferente, Líbano, para continuar as pesquisas. Fiquei envolvido com esse tema em particular por influência de meu colega Ian Stevenson, recentemente falecido, que investigava esses casos há um bom tempo. Ele queria alguém que também se envolvesse com o assunto com seriedade e me convidou para fazer parte de seu grupo.

FE – Há alguma razão especial para conduzir essas pesquisas no Sri Lanka e no Líbano?

Haraldsson
Inicialmente, escolhemos o Sri Lanka, pois há muitos relatos de crianças que se lembram espontaneamente de existências passadas, e o professor Stevenson já tinha colegas trabalhando naquele país, encontrando casos significativos para estudos. Ao chegar lá, esses colegas me ajudaram bastante.

FE – Houve algum caso que mais lhe chamou atenção durante as pesquisas?

Haraldsson
Na verdade, houve dois casos no Sri Lanka que despertaram a minha atenção. Um deles, apresentado durante uma de minhas palestras no Medinesp, é sobre um garoto que morava no subúrbio de Colombo, afirmava ter vivido em uma cidade próxima chamada Nuwara e ter morrido carbonizado em um carro. Mas apesar de muitos detalhes, não conseguimos comprovar a veracidade da história. Então, começamos a investigar outro caso de uma menina chamada Purmina Ekanayake, que aos dois anos e meio começou a relatar acontecimentos de uma vida anterior. Ela disse que trabalhava com a fabricação de incensos e estava indo ao trabalho em sua bicicleta quando foi atropelada. A partir dessas informações, ela começou a falar várias frases relacionadas a essa vida anterior, sobre as pessoas com quem vivia e principalmente o fato de que trabalhava com a fabricação de incensos do tipo “Ambiga” e “Geta Pichcha”, marcas bem específicas daquela região. Ela também descreveu aspectos de um templo do Sri Lanka chamado Keleniya e afirmou ter morado perto desse lugar, mas do outro lado do rio que corta o lugarejo. Outra informação relevante foi a de que seu pai na vida anterior não era um professor como na vida atual e que se lembrava da escola onde estudou em sua vida passada, a Rahula. Então, um pesquisador local, Sumanasiri, começou a levantar dados em Keleniya e encontrou a família de Jinadasa, que, de acordo com a descrição dada por Purmina, seria sua encarnação anterior. Em 1993, Purmina fez sua primeira visita à família de Jinadasa e suas marcas de nascença correspondiam às lesões sofridas por Jinadasa por ocasião de seu falecimento. E podemos verificar que, de fato, Jinadasa morreu após um atropelamento por ônibus, tendo em mãos a comparação de laudos de legistas que examinaram o corpo, com detalhes coincidentes das marcas apresentadas no corpo de Purmina. Os detalhes e a precisão de algumas informações desse caso foram realmente impressionantes no meu ponto de vista.

FE – Há uma explicação psicológica para a lembrança de vidas anteriores como nos casos apresentados?

Haraldsson
Isso foi algo que muito me interessou no Sri Lanka: a explicação do ponto de vista psicológico. Para tanto, apliquei testes psicológicos específicos, analisei se essas crianças estudadas estariam mais suscetíveis ou sugestionadas a lembrar de fatos relacionados às suas vidas anteriores do que outras, se elas estariam de alguma forma se associando às outras crianças. De acordo com as mães dessas crianças, elas apresentavam a tendência a sonhar acordadas por mais tempo do que outras da mesma idade, mais vocabulário... Entretanto, não encontramos aspectos psicológicos satisfatórios em relação aos casos estudados, mas pudemos verificar que as crianças não mentiam ao relatar vidas passadas, todas as afirmações puderam ser constatadas.

FE – Você realizou muitas pesquisas no Sri Lanka, encontrando lá diversas crianças que falavam sobre sua última encarnação. Isso se deve à cultura reencarnacionista do povo? De alguma forma a crença na reencarnação abre mais espaço a esse tipo de lembrança?

Haraldsson
Foi bem mais fácil encontrar casos no Sri Lanka, pois eles acreditam na reencarnação, já que é um país predominantemente budista. Mas encontramos alguns casos relevantes também no Líbano, mais especificamente em uma comunidade de drusos, que fazem parte do islamismo, porém acreditam em outros elementos filosóficos gregos e em uma forma de reencarnação. Nessa comunidade encontrei um caso bem interessante de um menino, que morava a cerca de 70 km de Beirute e, com aproximadamente três anos, começou a relatar a seus pais lembranças de uma vida passada na cidade de Beirute. Ele dizia também que morava perto do mar, mas relatava que tinha outra casa onde precisava chegar de avião. Ele mencionou muitos outros fatos específicos que puderam ser comprovados, como detalhes da casa onde morava. Falamos o nome de várias famílias que moravam na região e ele disse que a sua família era a Assaf e que seu primeiro nome era Rabih. Então, para solucionar o caso, pesquisamos sobre a possibilidade de encontrar alguém com esse nome e nos deparamos com uma história sobre um jovem de mesmo nome, que realmente vivia em Beirute, em uma casa cuja localização e descrição eram compatíveis com o que o menino falava. O nome do jovem era Rabih Assaf, tinha se mudado para a Califórnia para estudar e faleceu alguns anos depois, por suicídio.

FE – Durante suas pesquisas houve alguma situação em que os pais de crianças com esse tipo de lembrança não acreditavam em outras vidas, nos relatos que os filhos diziam?

Haraldsson
Sim, normalmente essa situação surge logo no início e os pais podem achar que é alguma fantasia, mas quando começam as comprovações, eles mudam seu ponto de vista.

FE – O fato de lembrar prejudica a vida da criança? Pode causar algum dano psicológico?

Haraldsson
Sim, ao fazer uma análise psicológica com algumas crianças que se lembravam espontaneamente de suas vidas passadas, houve um alto número de relatos de estresse pós-traumático. Isso ocorreu após algumas crianças relembrarem assassinatos ou casos de abusos e maus tratos.Quanto às crianças que eu analisei e se lembravam de vidas anteriores, não sabemos se a criança sofreu algum fator estressante na vida atual e não está claro se esse estresse se desencadeou com a morte ou a lembrança da morte. Mas, em boa parte, de 75 a 80%, o falecimento na vida anterior está ligado a algum tipo de acidente.

FE – Mesmo com tantos casos já comprovados de reencarnação, muitos cientistas ainda resistem em acreditar nos fatos?

Haraldsson –
Bem, a questão da prova da reencarnação é sempre típica... O que posso afirmar é que depois de todos esses estudos comprovando vidas passadas, já há evidências suficientes para mostrar a existência da reencarnação, isso realmente existe.

FE – Você conheceu o trabalho sobre a reencarnação desenvolvido por Hernani Guimarães Andrade, aqui no Brasil?

Haraldsson –
Sim, já li bastante a respeito. Ele estudou muitos casos nas décadas de 60 e 70... Stevenson também trabalhou com ele, cuidaram de alguns casos juntos e foi um grande pesquisador.

FE – Há grupos internacionais estudando cientificamente esses assuntos?

Haraldsson –
Há poucos estudando casos de crianças que falam sobre suas vidas anteriores. Um desses grupos está na Universidade de Virgínia (EUA), com estudos bem-sucedidos iniciados pelo dr. Ian Stevenson, agora sob a orientação do dr. Jim Tucker. Há outro grupo na Universidade da Tasmânia, orientado pelo dr. Jurgen Keil, e também a dra. Antonia Mills, da Universidade de Vancouver, no Canadá, centrando suas pesquisas na parte oeste desse país, e uma senhora no sul da Índia. Sobre pesquisas científicas em assuntos paranormais ou fenômenos anomalísticos, temos boas organizações internacionais como a Society for Scientific Exploration, e a Parapsychological Association and the Society for Psychical Research, ambas no Reino Unido, conduzidas por membros dos países integrantes. Para as pessoas interessadas em conhecer um pouco mais do trabalho desenvolvido por eles, sugiro uma busca na internet pela página eletrônica dessas associações, que estão disponíveis na língua inglesa.

FE – Outro assunto abordado durante o Medinesp foi “visões no leito de morte”, também tema de muitos estudos que você desenvolveu. Quando começaram os primeiros relatos?

Haraldsson –
Bom, a pessoa que começou a coletar os dados sobre visões no leito de morte de forma mais sistemática foi o físico William Barrett, da Irlanda. Ele começou a estudar os casos de sua esposa que trabalhava como obstetra em um hospital de Dublin, a capital. Muitas das pacientes que estavam quase falecendo viam parentes que já haviam morrido perto de seus leitos. Essas aparições sempre surgiam com sentimentos de paz e serenidade.

FE – Essas visões são comumente relatadas por quem está prestes a morrer?

Haraldsson –
Na maioria das vezes, as pessoas que passaram por essa experiência contam que vêem seus parentes que já faleceram, normalmente os mais próximos, como o pai, a mãe, um irmão ou irmã, com a finalidade de recebê-los, de recepcioná-los e conduzi-los no momento de sua partida.

FE – Isso serve como um meio para as pessoas não temerem a passagem, o momento da morte?

Haraldsson –
Sim, essas visões, ou até mesmo alucinações como chamam alguns médicos, fazem com que a pessoa passe a aceitar mais a morte.

FE – Alguns médicos argumentam que essas visões podem ser causadas pela medicação que o paciente está recebendo. As pesquisas realizadas levam em conta as drogas administradas?

Haraldsson –
Não sei quais as medicações usadas no início dos relatos, por volta da década de 20, mas com certeza na década de 70, quando iniciei os estudos, já eram bem diferentes. Alguns médicos e enfermeiras contam que alguns fatores apresentados pelos pacientes, como febre alta, dano cerebral, alguns medicamentos para sedação, poderiam produzir esses sintomas alucinógenos. Mas, analisando os fatos, as visões, as condições dos pacientes, podemos dizer que menos de 25% podem sofrer alguma interferência.

FE – Há pesquisas sobre as visões no leito de morte acontecendo?

Haraldsson –
A minha equipe trabalhou bastante a partir da década de 70 e, depois de um certo tempo, paramos. Hoje, há um projeto em uma universidade de Londres para a retomada dessas pesquisas, mas não sei se já iniciaram.

FE – Você também estudou por um tempo as Experiências de Quase-Morte?

Haraldsson –
Sim, essas experiências diferem das visões no leito de morte pelo fato das pessoas estarem próximas à morte, mas retornam.

FE – Você está conduzindo alguma pesquisa relacionada aos temas apresentados durante o congresso? Onde?

Haraldsson –
Sempre que tenho a oportunidade eu estudo casos de crianças que falam sobre suas vidas anteriores. Estou planejando uma pesquisa no Líbano, que consiste em entrevistar adultos que, enquanto crianças, lembravam de suas vidas passadas. O que vou fazer agora é quantificar quantas pessoas ainda lembram do que recordaram durante a sua infância e, entre elas, o que exatamente elas ainda lembram. Mais informações sobre o trabalho do pesquisador no site http://www.hi.is/~erlendur/

(voltar para entrevistas)

‘As crianças dizem ver familiares mortos’ – Melvin Morse

Giovana Campos

Melvin Morse é médico pela Universidade George Washington, em Washington, DC (EUA), com especialização em Pediatria. Atualmente mora na região metropolitana de Washington, mas até o final de 2006 morou em Seattle, onde mantinha sua clínica particular e lecionava na Universidade de Washington. Suas áreas de pesquisa incluem leucemia e tumores cerebrais, tendo fundado o Centro de Cuidados Pediátricos Transitórios, uma clínica para crianças expostas à cocaína na fase pré-natal. Em 2005 fundou uma clínica para diagnóstico e tratamento de autismo. Vinte anos atrás foi o primeiro pesquisador a estudar casos de Experiência de Quase-Morte (EQM) em crianças. É autor de vários livros, dentre eles os best-sellers Mais Próximo da Luz (traduzido para 19 línguas em 38 países), Transformados pela Luz, Visões de Despedida e Onde Mora Deus, e artigos científicos que têm dado origem a muitos documentários e entrevistas na mídia. No Medinesp, onde se apresentou com as palestras Onde Deus mora: áreas do cérebro com interface biológica com um universo interconectado e Experiência de Quase-Morte, ele concedeu a seguinte entrevista à Folha Espírita:

Folha Espírita – Há quanto tempo você estuda as Experiências de Quase-Morte (EQMs)?


Melvin Morse
Já estudo EQM em crianças criticamente doentes há mais de 20 anos.

FE – Há diferenças entre EQMs vivenciadas por crianças e adultos?


Morse –
As crianças apresentam um ponto de vista mais puro e bem simples sobre o que acontece com elas quando passam pela Experiência de Quase-Morte. Elas dizem coisas engraçadas como “eu vi o sol e ele tinha uma cara feliz”. Elas contam coisas simples e puras, exatamente como vivenciaram, sem a necessidade de fantasiar ou adicionar componentes religiosos ou culturais e vêem figuras como Jesus, relatando que Ele é muito bom. Podemos dizer também que as experiências têm uma mesma base, como o relato da saída do corpo, a entrada no túnel e a visão da luz. Na essência, as experiências são basicamente as mesmas. Em minha opinião, as experiências vivenciadas pelas crianças são mais bonitas, pela pureza que transmitem.

FE – Para que servem as EQMs?


Morse –
As EQMs acontecem com pessoas que estão vivas. Elas nos ensinam a entender como são nossos últimos momentos de vida, e em nossos últimos momentos. Em minha opinião, as EQMs são algo que devemos aprender a integrar na nossa vida cotidiana. O que há de mais importante ao estudar as EQMs do ponto de vista científico é entender como elas acontecem, se são causadas por alguma falta de oxigenação cerebral, se são por desorganizações da hora da morte ou experiências reais que podem acontecer às pessoas quando morrem.

FE – O cérebro poderia armazenar essas memórias? Como?


Morse –
O maior problema para entender as EQMs é o fato de um cérebro de uma pessoa em coma, perto da morte, poder ter alguma memória ou até mesmo vivenciar uma experiência como essa. Talvez, durante a EQM, a memória possa ser armazenada em algum lugar fora do cérebro. Parece ser um conceito chocante e ainda toda evidência científica relacionada à EQM nos aponta que essas memórias são processadas pelo cérebro, recuperadas e usadas para o entendimento. O cérebro usa o lobo temporal direito para processar a memória. Se você ler qualquer texto de Biologia, verá que essa é a finalidade dessa área do cérebro. É fascinante, pois o lobo temporal direito também é o responsável por processar experiências espirituais como as EQMs. Então memória e experiências espirituais estão interconectadas e isso faz sentido porque torna todo o processo único e individual, do ponto de vista espiritual e da memória, considerando quem nós somos, o que lembramos de nossas vidas e também nossa personalidade, nossos sonhos, esperanças e aspirações. Posso assegurar que a memória e a espiritualidade estão relacionadas, e as evidências nos mostram que talvez essa específica área do cérebro possa transcender a matéria para algo maior.

FE – Há alguma predominância no parentesco relatado pelas crianças durante uma EQM?


Morse –
As crianças freqüentemente contam que encontraram familiares falecidos ou até mesmo professores. Essa experiência chega a elas de uma forma que possam entender o que está acontecendo. Por exemplo, uma garota me disse: “Eu vi a minha avó sentada ao meu lado e estava envolta por nuvens brancas e eu estava junto a ela”. E então perguntei: “O que você quer dizer com ‘estava com ela’?” E a garota respondeu: “É isso que estou tentando descobrir”.

FE – Com esses estudos fica mais fácil levar ao meio científico a crença na vida após a vida, ou ainda há resistência?


Morse –
Levando em conta que as EQMs são os últimos momentos de nossa vida, elas nos ensinam os nossos últimos momentos até em pacientes que se encontram em profundo estado de coma ou que não se sentem acordados. Ainda assim há uma experiência espiritual, para não sentir medo da morte. Não ensina muito sobre a vida após a morte, mas sim a lidar melhor com a perda, com a dor do luto, ajuda os pais a suportar o falecimento de uma criança, qualquer pessoa a lidar com a morte em si. E, como disse anteriormente, nos ensina principalmente a entender os momentos finais de nossa existência. Mas após a vida... eu não sei (risos)... não sei muito sobre experiências após a morte.

FE – Pessoalmente, você acredita nessa possibilidade da continuidade da vida?


Morse –
Como cientista, posso responder até onde eu compreendo. Afirmo com segurança sobre as EQMs, pois as pessoas estão acordadas, conscientes de uma realidade maior e, de alguma forma, interagindo com essa realidade. Mas, cientificamente falando, acredito e é respeitável especular a probabilidade da vida após a morte. O que me parece interessante é que algumas pessoas parecem ter a habilidade em contatar ou conseguir algum tipo de comunicação com parentes já falecidos. Os pais que tiveram um filho falecido freqüentemente relatam que a criança volta para comunicar algo a eles. Na verdade, mais da metade teve essa experiência em algum momento de sua vida. Normalmente isso acontece de repente e não acredito que seja necessário algum talento para esse tipo de comunicação, a comunicação com os mortos.

FE – Quais estudos estão sendo conduzidos por sua equipe em relação aos assuntos espirituais?


Morse –
No momento, uma pesquisa está sendo realizada concomitantemente na Universidade de Virgínia e na Universidade do Arizona por minha equipe para comprovar se realmente conseguimos nos comunicar com os mortos, se há comprovações científicas ou se simplesmente são hipóteses.


FE – E o que você acha? As pessoas podem realmente se comunicar?


Morse –
Sempre me perguntei se é verdade que as pessoas consigam esse tipo de comunicação. Essa é uma questão muito importante, principalmente para meu trabalho como pediatra. Há muitos pais desesperados para obter algum tipo de contato de seus filhos que já partiram. Em minha opinião, essa experiência realmente acontece com algumas pessoas, que devem ser consideradas e acreditadas. Muitas vezes, os pais chegam até mim dizendo que irão procurar um médium ou querem aprender a se comunicar com o espírito de um filho, mas após algum questionamento, eles mesmos contam que viram ou sentiram o filho perto de sua cama, dizendo: “Mamãe, não se preocupe comigo”. E, então, pergunto a eles sobre essa experiência em específico: “E nessa ocasião, não foi o seu falecido filho falando com você?” E eles argumentam que foi apenas um sonho, não foi real. Eu acho que o primeiro passo é o fato de que as pessoas devem olhar para sua própria vida e perguntar do fundo do coração se já passaram por esse tipo de experiência antes de procurar alguém com a finalidade de realizar essa comunicação por elas.

 

 “O cérebro usa o lobo temporal direito para processar a memória. Se você ler qualquer texto de Biologia, verá que essa é a finalidade dessa área do cérebro. É fascinante, pois o lobo temporal direito também é o responsável por processar experiências espirituais como as EQMs. Então memória e experiências espirituais estão interconectadas e isso faz sentido porque torna todo o processo único e individual”

 

“Os pais que tiveram um filho falecido freqüentemente relatam que a criança volta para comunicar algo a eles. Na verdade, mais da metade teve essa experiência em algum momento de sua vida”

Mais informações sobre o trabalho do médico no site www.melvinmorse.com