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AINDA A QUESTÃO DO ANENCÉFALO
(Folha Espírita - Dezembro/2004)
Colegas da AME-Brasil (Associação Médico-Espírita
do Brasil) têm se surpreendido, tanto quanto eu mesma, com as colocações
de confrades, em conversas nas Casas Espíritas, em artigos na internet,
ou mesmo em cartas, a favor do aborto do anencéfalo.
Muitos alegam que o feto nessas condições
não possui cérebro, sendo óbvio, portanto, que não
tenha nenhum espírito ligado a ele. Este argumento, porém,
não tem o respaldo da embriologia. Durante a sua formação,
o feto anencéfalo pode ter, por distúrbios ou falhas do
sistema vascular, a paralisação do desenvolvimento do Sistema
Nervoso Central em pontos distintos. Assim, pode ter um único hemisfério
cerebral, não ter nenhum, mas, sem dúvida, terá o
diencéfalo ou as estruturas reptilianas responsáveis pelas
funções primitivas e inconscientes. Tanto é verdade
que o anencéfalo tem todas as atividades instintivas básicas
preservadas, como o pulsar do coração e a possibilidade
de expandir os pulmões, nos movimentos respiratórios normais.
Não se pode dizer, portanto, que ele não tem cérebro,
nem tampouco que morre ou pára de respirar ao nascer. Há
inúmeros anencéfalos que persistem vivos por horas ou dias,
após o nascimento, mesmo desconectados do cordão umbilical,
justamente porque possuem o cérebro primitivo, responsável
pelas funções básicas instintivas.
Perante o anencéfalo é como se estivéssemos
diante de uma pessoa adulta em estado de coma profundo: o coração
bombeia, os pulmões recebem a carga necessária, os órgãos
trabalham, mas ele não tem consciência.
Com o Espiritismo aprendemos que a alma secreta os pensamentos
de maneira extra-física e é muito mais importante que o
próprio cérebro orgânico, porque o comanda, ainda
que precariamente nos casos de lesões graves, sobrevivendo à
sua morte. É o que acontece nos vários graus do estado de
coma.
Se somos espíritas, a explicação
para os fetos anencéfalos é muito mais lógica e racional.
Não podemos nos esquecer de que só o Espírito tem
capacidade de agregar matéria. Se não tivesse um Espírito
no comando, o anencéfalo não poderia formar os seus próprios
órgãos - e o fazem a tal ponto que eles são cogitados
para transplantes -, não cumpriria o seu metabolismo basal, e não
teria preservadas as suas funções vitais.
O Espírito expressa-se através do perispírito
ou do corpo espiritual e este, por sua vez, modela o corpo físico.
Se há erros ou deficiências na modelagem, isto significa
que o Espírito deformou o seu perispírito por problemas
cármicos ou faltas cometidas em outras vidas. Assim como podem
ocorrer deficiências nos mais variados órgãos, a questão
não é diferente em relação ao cérebro.
No caso do anencéfalo, o perispírito está
lesado, principalmente, em seu chacra ou centro de força cerebral
que é responsável pela percepção (visão,
audição, tato etc), pela inteligência (palavra, cultura,
arte, saber) e atua no córtex. O Espírito com este tipo
de má-formação errou, portanto, na aplicação
da inteligência e da percepção.
Os confrades favoráveis ao aborto do anencéfalo
alegam que nele não há Espírito destinado à
reencarnação conforme explica O Livro dos Espíritos.
Aqui, detectamos um erro clássico, não se pode basear unicamente
em uma resposta dos Instrutores Espirituais. Levantemos todas as respostas
que eles nos dão acerca da formação dos seres humanos
e destaquemos as mais importantes para a elucidação deste
assunto.
Na questão 344, eles afirmam que a união
da alma com o corpo dá-se no momento da concepção;
um pouco mais adiante, na de nº 356, advertem que há corpos
para os quais nenhum Espírito está destinado, explicando
que isto acontece como prova para os pais. E ainda no desdobramento desta
questão enfatizam que a criança somente será um ser
humano se tiver um espírito encarnado. Se juntarmos todas estas
respostas, concluiremos que os corpos para os quais poderíamos
afirmar que nenhum espírito estaria destinado seriam os dos fetos
teratológicos, monstruosos, que não têm nenhuma aparência
humana, nem órgãos em funcionamento. Como vimos, nada disto
se aplica ao anencéfalo, porque o espírito comanda, ainda
que precariamente, um organismo vivo.
Carma
Há ainda outros equívocos
no raciocínio dos que são favoráveis ao aborto. Alguns
ponderam que, tendo a mãe ou o casal nascido numa época
em que a ciência já pode detectar prematuramente o problema,
eles teriam o direito de evitar esse carma, promovendo o aborto. Aqui,
a pergunta é inevitável: desde quando se evita o carma ou
o sofrimento, provocando a morte de um ser indefeso?
Jamais o aborto aliviará o carma de alguém,
muito pelo contrário, somente o agravará. Só haveria
um meio de se adiar esse carma, seria pelo impedimento da concepção,
porque, quando a vida se manifesta no zigoto, entra em jogo um Poder Superior,
que é responsável por ela, e ao qual devemos obediência
e respeito.
O raciocínio, portanto, deve ser outro: diante do feto deficiente,
é preciso que os pais pensem no grau de comprometimento que têm
para com esta alma doente, e nos esforços que devem empreender
para ajudá-la a recuperar-se. Também não há
nenhuma razão para se invocar direitos que não existem,
como o da mãe, o do pai, o da equipe médica ou o do Estado,
de provocar o aborto, porque o anencéfalo constitui-se em um organismo
humano vivo. Eliminá-lo, portanto, é crime.
A consciência responde-nos, portanto, que a única
atitude compatível com a Lei do Amor é a da misericórdia,
a da compaixão, para com o feto anencéfalo.
* Marlene Nobre é
presidente das associações médico-espíritas
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