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SÍNDROME DE DOWN: DA REJEIÇÃO À PAIXÃO
(Folha Espírita - Abril/2005)
Médico pediatra e sanitarista há 26 anos,
Ruy do Amaral Pupo Filho (foto), 53, não se esquece daquela quarta-feira,
2 de fevereiro de 1990. Ele estava no centro cirúrgico com sua
mulher, Izilda, para o nascimento de seu terceiro filho, quando ouviu
claramente uma voz em sua mente que disse: “prepare-se pois a criança
é malformada”. Naquela ocasião, lembrou que desde
o tempo de namoro comentava com sua mulher que não se sentia preparado
para ser pai, que achava que essa era uma enorme responsabilidade, maior
até que a de ser pediatra. E que um dos maiores pavores de sua
vida era ter um filho excepcional, embora admita que não pensava
muito nisso. A operação correu normalmente e Marina nasceu.
Apesar de a equipe presente tê-la considerado normal, após
olhá-la detalhadamente, Pupo compreendeu o que a voz queria dizer:
sua filha tem Síndrome de Down.
Foram várias consultas e exames até a confirmação
da anomalia e, apesar da experiência que já tinha como médico,
Pupo percebeu, a partir dali, que ainda tinha muito que aprender. “Os
conceitos sobre Síndrome de Down no Brasil, na época, eram
bastante atrasados. Ainda chamávamos essas pessoas de mongóis,
acreditávamos que eram todas crianças profundamente retardadas,
muito doentes, e que morriam cedo. Infelizmente, isso era tudo que o pai
e pediatra Ruy Pupo sabia sobre Síndrome de Down”, lembra.
Foi, então, que ele conheceu outros pais que também tinham
filhos como Marina, e profissionais que ora conhecia, também se
aprofundavam em estudos sobre a anomalia, e percebeu que estava na hora
de arregaçar as mangas e ir atrás de informações
e propagá-las.
“As notícias davam conta de que, nos Estados
Unidos, as pessoas com Síndrome de Down estavam se alfabetizando,
estudando em escolas comuns, trabalhando, escrevendo livros, morando sozinhos.
Foi um choque cultural, fiquei pasmo, com informações tão
boas e positivas, que eu não podia imaginar, embora o desenvolvimento
da Marina já estivesse nos surpreendendo. Filiei-me a duas entidades
americanas de Síndrome de Down e imediatamente comecei a pensar
na possibilidade de montar uma associação, no molde das
estrangeiras, para difundir essas novas informações, para
espalhar as boas-novas. Naquele momento começou a nascer minha
parcela de contribuição ao que é hoje a Up Down –
Associação de Pais de Filhos com Síndrome de Down,
que foi criada com o objetivo principal de difundir as mais modernas e
atualizadas informações sobre o assunto”, relata.
Marina e a Up Down cresceram juntas. O trabalho desenvolvido
pela Up Down teve um retorno e um sucesso bem mais rápido do que
o esperado. “Dentro de nossa proposta de trabalho, de divulgação
de informações, o passo mais importante foi a edição
de um informativo, contendo matérias de interesse para pais, profissionais
e sociedade em geral, que passou a ser distribuído a pessoas de
todo o Brasil. Passamos a ter correspondência com pais e profissionais
de todo o País e também do exterior. Em um congresso realizado
em 1992, houve uma reunião de todas as associações
de pais de pessoas com Síndrome de Down de todo o Brasil. Foi muito
emocionante conhecer pessoas e entidades que já lutavam há
anos, cada qual a seu modo, em defesa das pessoas com Síndrome
de Down. O que faltava era união, troca de experiências,
divulgação dos trabalhos realizados em cada entidade”,
lembra. Essas necessidades, reconhecidas pelos presentes ao congresso,
foi a base da idéia de se criar uma federação brasileira
dessas associações. Coube à Up Down a tarefa de liderar
os trabalhos de preparação da federação, que
foi concretizada em 1994.
Conforme lembra Pupo, a situação das pessoas
com Síndrome de Down começou a mudar há quase 20
anos, quando começaram a se beneficiar da chamada intervenção
precoce, ou seja, a abordagem de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia
Ocupacional, e também Psicologia e Pedagogia. “O objetivo
é estimular a criança, fazendo com que o atraso no desenvolvimento
seja minimizado, ou, por outro lado, que seu desenvolvimento seja otimizado”,
aponta.
Conquista
Conforme relata Pupo, que acabou contando sua história
no livro Síndrome de Down – E agora doutor?, da editora WVA
(RJ), da rejeição inicial à paixão fulminante
foram poucos meses. “Se você aceita a realidade e começa
lentamente a curtir o seu filho, da forma que ele é, aos poucos
desaparece a rejeição, surgida porque você queria
o filho perfeito, idealizado durante a gestação, sem Síndrome
de Down”, diz.
“Com poucos meses de vida, por tudo que nos mostrava,
por sua graça, alegria, alto astral, a Marina já havia me
conquistado, e eu já estava por ela perdidamente apaixonado. Eu
já tinha consciência de que o amor que sentia pela Marina
era diferente dos demais jeitos de amar que eu conhecia; eu sabia, então,
que meu amor por minha filha excepcional era excepcionalíssimo!
Mais que uma paixão, um amor profundo, verdadeiro, transcendental.
A Marina, com toda sua vivacidade, alegria, espontaneidade, além
de seu excelente desenvolvimento, é, às vezes, de uma normalidade
assustadora, o que não significa que estejamos negando suas dificuldades.
É apenas um traço real de seu comportamento. Quanto aos
seus limites, não os conheço, assim como não sei
os limites de meus outros filhos”, acrescenta o pediatra, também
pai de Beatriz, 22, e Fábio, 18.
Pupo avisa os pais que possam estar se sentindo “perdidos”
diante da Síndrome de Down que as pessoas nascidas dessa forma
têm limitações, mas também potenciais. “São
capazes de amar, de entender, de sofrer, de se divertir e de chorar. Não
são anjos de Deus, nem idiotas. São seres humanos únicos,
como qualquer um de nós, que almejam o mesmo: amar, ser amados
e felizes. E para conseguir isso, dependem especialmente de sua família”,
observa.
Eles não sabem?
Como neonatologista há 26 anos, já acompanhei
o nascimento de muitos bebês. E assim como não há
duas pessoas iguais, todos os nascimentos são únicos. Já
vivenciei inúmeros momentos marcantes, na grande maioria felizes,
mas também muitos momentos tristes.
Certo dia, fui procurado por uma gestante, jovem, que
havia descoberto que seu bebê, ainda em formação,
tinha a Síndrome de Down. Veio em busca de mais informações,
pois, apesar do choque e da tristeza que sentia, já havia resolvido
que iria ter o bebê. O tempo que decorreu entre o diagnóstico
e o parto permitiu que os sentimentos negativos iniciais, normais, fossem
transformados em aceitação, amor e vontade de ajudar seu
bebê.
Normalmente, quando nasce um bebê com algum tipo
de problema, o ambiente se transforma totalmente. A alegria que comumente
existe entre os pais e profissionais se transforma em silêncio,
tristeza e pesar. No dia do nascimento desse menino, foi diferente. Ou
melhor, foi igual ao nascimento de qualquer outro bebê. Muitos familiares
presentes, alegria, sorrisos e festa. Quando levei o bebê ao berçário,
a funcionária que lá estava percebeu de imediato os traços
inconfundíveis da síndrome. Olhou para fora através
da vidraça do berçário e viu a família toda
comemorando. Ela não se conteve e me perguntou: “Doutor,
essa família ainda não sabe que o bebê tem Síndrome
de Down?”
Hoje esse menino se desenvolve muito bem, tem todo o
amor e o apoio de sua família, é a alegria da casa. Entre
tantos momentos marcantes em minha vida profissional, esse é inesquecível.
Conscientização e orientação
são fundamentais
Além de médico pediatra e sanitarista,
com experiência em consultório, berçário e
terapia intensiva neonatal, Ruy do Amaral Pupo Filho é professor
responsável pela cadeira de Pediatria da Faculdade de Fisioterapia
da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP), e consultor científico
do site Guia do Bebê (www.guiadobebe.com.br). É também
pós-graduado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade
de São Paulo e ocupou diversos cargos na administração
de serviços públicos de saúde. Foi presidente do
Conselho Municipal de Saúde de Santos por duas gestões (1994
a 1998) e atualmente é coordenador de hospitais da Secretaria de
Saúde do município.
Eleito “Pai do Ano” pela revista Cláudia,
em 1995, e “Gente que Faz”, em 1997, por sua militância
em defesa dos direitos das crianças com deficiência, é
autor dos livros Síndrome de Down – E agora Doutor?, Editora
WVA (1997), esgotado; Manual do Bebê, Editora Alegro/Elsevier (2002),
já na sexta edição; Como educar seus filhos –
uma nova postura para a nova família, Editora Alegro/Elsevier;
e Plantão Médico: Sala de Parto – onde a vida começa
e histórias incríveis também, inédito. O pediatra
já escreveu também vários artigos em jornais e revistas
e realizou inúmeras palestras por todo o País sobre Pediatria
e sua história pessoal.
Folha Espírita – Qual sua
opinião sobre as clínicas de Medicina Fetal que têm
indicado o aborto em casos de diagnóstico de Síndrome de
Down ou de outras más-formações?
Ruy do Amaral Pupo Filho –
Em minha visão pessoal, eu respeito o livre-arbítrio de
cada pessoa ou família agir de acordo com o que julga ser sua melhor
convicção. Mas não acredito no aborto como uma solução.
Eu acho que faltam para esses pais informações verdadeiras
e atualizadas sobre a real potencialidade das pessoas com deficiência,
para que eles possam decidir de maneira mais consciente. Independentemente
de qualquer outra consideração, nós já vimos,
em nossa história recente, onde as teorias eugênicas nos
levam...
FE – Na sua opinião,
os portadores dessas anomalias representam um ônus para a sociedade
e um transtorno para as suas famílias?
Pupo – Não, de
forma alguma. É claro que o nascimento de uma criança com
algum tipo de deficiência geralmente provoca um grande impacto na
vida dessas famílias, com repercussões de ordem psicológica,
entre outras. Mas grande parte do problema se deve à desinformação
e ao preconceito, que seriam evitados com uma conscientização
da sociedade. E, passado o primeiro impacto, essas famílias reestruturam
suas vidas e passam a usufruir de todas as coisas boas que uma criança,
deficiente ou não, traz para um lar.
FE – O senhor
acha importante um trabalho de conscientização e orientação
para casais com esse tipo de diagnóstico?
Pupo – Sem dúvida. Aqui em minha
cidade, Santos (SP), numa parceria surpreendente, recebo em meu consultório
casais nessa situação encaminhados por clínicas de
Medicina Fetal. Os próprios médicos dessas clínicas
tomam a iniciativa de encaminhá-los, para dar-lhes a chance de
receber informação para facilitar a decisão. E sou
testemunha de muitos casos em que a família decidiu ter o bebê
e tudo correu exatamente como relatei na pergunta anterior.
FE – Os médicos,
que não aceitam a orientação intervencionista das
clínicas de Medicina Fetal, para onde devem encaminhar os casais
que enfrentam um diagnóstico de má-formação
ou de síndrome genética durante a gestação?
Quem indicar? A quem procurar?
Pupo – Eu creio que
a melhor opção é encaminhar os casais para as associações
de pais com filhos com o mesmo problema ou profissionais a elas ligados.
Existem inúmeras em todo o País, praticamente para cada
tipo de diagnóstico. Lá eles terão a informação
atualizada da exata realidade que
irão viver.
FE – Já
existem pesquisas quanto às conseqüências psicológicas
para a mulher ou para o casal nos casos de abortamento provocado?
Pupo – Eu desconheço
esse dado. Mas acredito que elas já existam. Empiricamente, na
clínica diária, vemos muito arrependimento, traumas, complexo
de culpa. Muitos tentam adotar um filho depois, na tentativa de resgatar
esse sentimento.
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