PESQUISAS REFORÇAM A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA NA EDUCAÇÃO
(Folha Espírita - Agosto/2005)

A imagem da criança, segundo Philippe Ariès (1), surge a partir do século XVI, na iconografia dos calendários que retratavam o cotidiano da vida do ser humano. Essas imagens se ligavam a uma necessidade desconhecida de intimidade, de vida familiar, e passou a ser uma representação da família. Nessa seqüência, que se inicia pelo noivado, depois o casamento, constituição da família, etc., na oitava fase aparece o drama familiar, que é a morte da criança.

Segundo Ariès, naquela época, o índice de mortalidade infantil era muito elevado devido às condições socioeconômicas e culturais em que viviam as pessoas. Entre os fatores apontados por ele estavam: a falta de higiene, o desgaste físico das mulheres em decorrência dos processos gestatórios contínuos, a falta de cuidados com os recém-nascidos, a morte por acidentes domésticos como, por exemplo, o sufocamento ocorrido durante o sono, já que todos dormiam juntos, a falta de medicamentos, de alimentos, etc.

Ainda hoje se observa que milhares de vidas infantis continuam sendo dizimadas e constata-se que, em muitas situações, os motivos são os mesmos apontados por Ariès, apesar dos avanços ocorridos em muitos setores da vida humana.

Adolescência

Estudos apontam que cada vez mais cresce o número de casos de gravidez em adolescentes, sem que elas tenham o menor preparo para manter e cuidar com dignidade do novo ser que está vindo ao mundo. Segundo o espírito Joanna de Ângelis (3), “a maternidade na adolescência é um dos mais tormentosos fenômenos que o sexo irresponsável produz, face às conseqüências que gera”.

Uma dessas conseqüências pode ser a interrupção da gravidez pelo processo criminoso do aborto, que é realizado por pessoas inescrupulosas apenas interessadas no lucro monetário, colocando em risco a vida da mãe, quando não provocando seqüelas irreversíveis.

Já sabemos que muitos desses acontecimentos são decorrentes da falta de esclarecimento das pessoas que, muitas vezes envolvidas por soluções imediatistas, acabam acarretando problemas de difícil solução para suas vidas, material e espiritual.

Medida Eficaz

Recente pesquisa publicada pela revista Veja (6) mostrou que a medida mais eficaz contra a mortalidade infantil (crianças com menos de 4 anos) é o aumento do grau de instrução (educação básica) das mulheres. Os autores demonstram que se o analfabetismo da população feminina caísse 1%, 415 mortes seriam evitadas por ano. Além desse, outros dados são apontados: se o número de casas interligadas à rede de esgoto sanitário aumentasse 1%, 216 mortes seriam evitadas por ano; se o número de casas que recebem água tratada aumentasse 1%, 108 mortes seriam evitadas por ano; se o número de leitos hospitalares subisse 1%, 27 mortes seriam evitadas por ano.

Pelos resultados apontados, observa-se que muitas medidas que deveriam ser tomadas para sanar o problema dependem de ações governamentais, mas que poderia ser minimizado ou até evitado com a conscientização, educação e instrução da população, em especial da feminina. Isso poderia lhe proporcionar melhores condições de realizar um planejamento digno para sua vida, programar a vinda dos filhos, evitar a gravidez indesejada e o aborto como solução extrema.

Avaliação

Já o jornalista Gilberto Dimenstein (2) em sua coluna domingueira na Folha de S. Paulo, com o título “Estamos prejudicando nossos melhores alunos?”, escreveu sobre uma avaliação que foi realizada junto a alunos da Universidade de Campinas (Unicamp), que já haviam passado pelo mesmo processo seletivo de entrada na universidade, com as mesmas notas, cursando o mesmo curso e no mesmo ano. A única diferença entre eles, em termos de formação e oportunidades escolares, é que uns eram oriundos de escolas particulares e outros de escolas públicas. Os resultados dessa avaliação apontaram que os alunos das escolas públicas se saíram muito melhor do que os alunos das escolas particulares.

Pesquisa semelhante foi realizada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com os alunos mais pobres que entraram na universidade pelo sistema de cotas. Os alunos “cotistas”, segundo o jornalista, “apresentaram rendimento ligeiramente superior ao dos demais universitários matriculados nos mesmos cursos”.

Uma das razões apresentadas pelo reitor da Unicamp para esse resultado foi que os estudantes das escolas públicas, “lutando contra todas as dificuldades, desenvolveram uma garra especial”.

Mães têm papel preponderante

Perri de Carvalho (5), espírita militante, pesquisador sobre Ensino Superior, citando dados do IBGE, pesquisas realizadas na Universidade de São Paulo (USP) e outros autores, aponta que historicamente há uma interação família – educação – desenvolvimento dos povos, do papel fundamental dos pais, em especial o grau de instrução da mãe, no ingresso dos filhos no ensino superior, bem como na escolha da profissão.

Verificamos que as pesquisas estão reforçando, cada vez mais, os postulados da Doutrina Espírita, que sempre apontaram que os pais, em especial as mães, têm papel preponderante no processo de educação dos espíritos reencarnados. Esse processo tem como objetivo levar o ser a adquirir autonomia, liberdade, mas essas conquistas só se efetivam quando vêm acompanhadas da responsabilidade. Responsabilidade, em chegando à fase adulta, de viver por conta própria, não só financeiramente, mas principalmente assumir a responsabilidade de governar a própria vida e de arcar com as conseqüências de sua escolha.

Os cuidados que o espírito reencarnado necessita no período da infância, inclusive na manutenção da vida física, aos poucos precisam ser substituídos por outros, a partir da adolescência, diminuindo gradualmente a tutela e proteção ofertadas pelos pais e educadores e preparando-o para adquirir a liberdade, que é a maior conquista do espírito em evolução. Os pais necessitam ficar alertas para que, no momento certo, não impeçam os filhos de conquistarem a sua autonomia. O excesso de proteção no lar dificulta ou até impede o caminhar pela vida.

Portanto cabe aos pais, à família, ter o discernimento necessário para, desde o momento inicial do processo reencarnatório do espírito, dar-lhe condições para que seja educado, concedendo o atendimento e cuidados necessários em cada período de sua vida física, levando em consideração as características de cada um. Como nos afirma o espírito Emmanuel (7): “A melhor escola ainda é o lar, onde a criatura deve receber as bases do sentimento e do caráter”.

Referências:

1. ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1975.
2. DIMENSTEIN, G. Estamos prejudicando nossos melhores alunos? Artigo. Jornal Folha de São Paulo, caderno Cotidiano, 15/5/2005.
3. FRANCO, D. P. Adolescência e Vida. Livraria Espírita Alvorada Editora, 1997, p. 116.
4. KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 84. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
5. PERRI DE CARVALHO, A. C. “Família – Processo de Reeducação”. In: A Família, o Espírito e o Tempo, autores diversos. São Paulo: Edições USE, 1994.
6. Revista Veja, 11/5/2005, p. 37.
7. XAVIER, F. C. O Consolador, perg. 110, Rio de Janeiro: FEB, 1967.

Espírito se aperfeiçoa na infância

Fazendo-se uma análise dos resultados das pesquisas apontadas pela revista Veja e pelo jornalista Gilberto Dimenstein, encontramos em O Livro dos Espíritos (4) a pergunta número 383, em que Kardec pergunta aos espíritos: “Qual é, para o Espírito, a utilidade de passar pelo estado de infância?” Resposta: “O Espírito se encarnando para se aperfeiçoar é mais acessível, durante esse período, às impressões que recebe, que podem ajudar o seu adiantamento, para o qual devem contribuir aqueles que estão encarregados de sua educação”.

Segundo os espíritos, a infância é o período da vida física mais importante para o aperfeiçoamento do espírito encarnado, uma vez que suas tendências anteriores estão adormecidas em função do processo reencarnatório. É nesse período que a criança, sem o livre-arbítrio necessário, é dependente da família, em especial da mãe, necessitando de cuidados especiais e maior atenção. Sozinha, não terá as mínimas condições de sobrevivência.

A pesquisa, apontando que o grau de instrução da mulher é muito importante na diminuição do índice de mortalidade infantil, e complementamos, para seu aperfeiçoamento, vem corroborar as informações dos espíritos, quando nos esclarecem na pergunta 385 do citado livro que “... os espíritos não entram na vida corporal senão para se aperfeiçoar, se melhorar; a fraqueza da pouca idade os torna flexíveis, acessíveis aos conselhos da experiência e daqueles que devem fazê-los progredir. É quando se pode reformar seu caráter e reprimir-lhes as más inclinações...”.

Por outro lado, quando a criança já se torna jovem, jovem-adulto, os excessos de cuidados, de zelo, de mimos e de proteção acabam dificultando-lhes o aprender a viver e lidar com os problemas que a vida constantemente está oferecendo para o aprendizado do espírito, uma vez que é no período da adolescência, como nos esclarecem os espíritos na pergunta 385 de O Livro dos Espíritos, que o espírito encarnado começa a retomar suas características de espírito eterno em processo de evolução.