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FEB, ABRAME E AME UNIDAS CONTRA O ABORTO
(Folha Espírita - Julho/2005)
Mesmo com a crise política que assolou o País
no último mês e afetou diretamente o dia-a-dia em Brasília,
os presidentes da Federação Espírita Brasileira (FEB),
Nestor Masotti; da Associação Brasileira de Magistrados
Espíritas (Abrame), Zalmino Zimmermann; e da Associação
Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil), Marlene Nobre, conseguiram
concretizar uma ação histórica no Movimento Espírita:
serem recebidos por várias autoridades – da Procuradoria
Geral da República, Senado, Câmara dos Deputados e Superior
Tribunal de Justiça (STJ) –, entregarem manifestos contra
o aborto e terem a promessa de que, a partir de agora, os espíritas
serão lembrados e consultados nas discussões que envolvam
a defesa da vida.
Os manifestos, elaborados por membros da Abrame e AME-Brasil,
foram entregues, de 15 a 23 de junho, a várias autoridades: Antonio
Fernando Barros e Silva de Souza, procurador geral da República
em exercício (o procurador Cláudio Fontelles viajava); Francisco
Adalberto Nóbrega, subprocurador da República; Edson Vidigal,
presidente do Supremo Tribunal de Justiça; senador Renan Calheiros
(PMDB/AL), presidente do Senado; senador Artur Virgílio (PSDB/AM),
vice-líder da oposição; senadores Juvêncio
da Fonseca (PDT/MS) e Ana Júlia Carepa (PT/PA); deputados Luiz
Carlos Bassuma (PT/BA), Ann Clélia Pontes (PMDB/PA), Ângela
Moraes Guadagnin (PT/SP) e Durval Lopes Orlato (PT/SP). Além dos
contatos diretos, foram enviados, via Correio, manifestos para os demais
deputados e senadores, bem como aos cerca de 20 mil juízes de todo
o Brasil, tendo a Federação Espírita Brasileira se
responsabilizado por esse trabalho.
Visitas
As visitas começaram em 15 de
junho, à Procuradoria Geral da República, onde, segundo
Marlene Nobre, apesar da neutralidade diante do assunto, “como não
poderia deixar de ser”, foram recebidos com “muita cortesia”.
No dia 16, o senador Juvêncio da Fonseca também recebeu o
grupo, mostrando-se favorável à sua posição.
“Ele propôs, inclusive, movimentar-se no sentido de favorecer
a realização de audiências públicas que permitam
a nossa manifestação contrária ao aborto e o livre
debate com a população”, conta Marlene.
A presidente da AME-Brasil lembra do fato inusitado
que se deu em seguida: “Encontramos o senador Artur Virgílio,
que veio nos cumprimentar, sem nos conhecer pessoalmente. Quando lhe disse
que era viúva do deputado Freitas Nobre, ele ficou profundamente
emocionado. Disse que é católico, mas que uma de suas filhas
havia se tornado kardecista, espontaneamente. Foi ele quem nos convidou
para falarmos com o senador Renan Calheiros, que também havia sido
vice-líder, como ele, sob a tutela do líder Freitas Nobre.
Entregamos os manifestos debaixo de um clima muito amistoso”.
Antes de estar com o presidente do Senado, o grupo se
reuniu com o deputado espírita Luiz Bassuma, que prepara uma estratégia
para a defesa das idéias apresentadas. No mesmo dia, também
estiveram com as deputadas Ann Pontes e Ângela Guadagnin, contrárias
ao aborto, e a senadora Ana Júlia, que é a favor.
Os dias de visitas foram encerrados com reunião
com Edson Vidigal, presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ),
que se comprometeu a estar presente no 3º Congresso da Abrame em
Goiânia, em 7 de setembro. “Fomos acompanhados do ministro
Costa Leite e do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Francisco
César Asfor Rocha, que pertence à Diretoria da Abrame e,
naturalmente, reforçou, pessoalmente, o manifesto da Abrame e o
da AME”, acrescenta Marlene, que também esteve, no dia seguinte,
com o deputado Durval Orlato, católico contrário ao aborto.
Em todas as visitas, o presidente da FEB, Nestor Masotti,
fazia um apanhado da razão da visita, em seguida Zimmermann tratava
do aspecto jurídico da questão e Marlene das razões
científicas. “Para todos, fizemos questão de frisar
que nosso posicionamento baseou-se nas ciências jurídica
e médica. Fomos recebidos como pertencentes a uma religião
que tem o que dizer em todas as áreas do conhecimento humano”,
declara Marlene.
Orientação
“Estamos muito felizes porque
foram muito auspiciosos os resultados, com a orientação
da espiritualidade guiando nosso trabalho. Entre proveitosas colheitas,
podemos citar a deflagração de um movimento que vai ter
grande repercussão nacional, com a criação de uma
comissão parlamentar em defesa da vida. Ela deve se iniciar com
cerca de 30 congressistas, mas, pelas expectativas, geradas por contatos
que vêm sendo feitos em diversos níveis, deve chegar a 100”,
esclarece o presidente da Abrame.
Segundo Zimmermann, a comissão deve promover audiências públicas
e tornar pela instalação de uma comissão especial
para o exame de todos os projetos referentes ao aborto que estão
em tramitação no Congresso. “Conforme nos informou
o senador Juvêncio da Fonseca, é grande a possibilidade de
se convocar uma audiência pública também por parte
da Comissão dos Direitos do Cidadão”.
Para Nestor Masotti, o Movimento está trabalhando para levar sua
contribuição aos responsáveis pela legislação,
especialmente na questão do aborto, que trata da defesa da vida.
“Nossa contribuição está sendo bem acolhida.
E sabemos que ela vem ajudá-los muito para que possam deliberar”.
Frente Parlamentar deve discutir o tema
Por conta do encontro com o senador Juvêncio da
Fonseca e deputado Luiz Bassuma, deve ser criada, após o período
de recesso, uma Frente Parlamentar em Defesa da Vida, mista e suprapartidária,
integrada por senadores e deputados de todos os partidos, contrários
ao aborto.
“Isso será de suma importância, porque
permitirá a formação, entre outras coisas, de uma
comissão com função específica de fazer a
análise conjunta dos vários projetos que tramitam sobre
o assunto e promover debates com a sociedade em vários Estados
do País”, afirma Marlene Nobre, presidente da Associação
Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil). Nestor Masotti,
presidente da Federação Espírita Brasileira, completa
que, com mais força, a Frente poderá ampliar o diálogo
com a população, preparando audiências públicas
e outras manifestações, nas quais, como ficou acordado,
os espíritas também serão ouvidos, tanto quanto os
demais membros da sociedade.
De acordo com o senador Fonseca, presidente da Comissão
Permanente de Direitos Humanos e Legislação Participativa,
hoje existem pelo menos 40 projetos que tratam do assunto. “O momento
é de liberalidade e isso está preocupando todos. Ainda não
existe uma pauta de trabalho para a Frente, mas as conversações
já começaram e ela poderá ser concretizada após
o recesso parlamentar. Esperamos que ela possa servir de veículo
para massificar a importância de uma ação antiaborto
neste País”, declara.
O DIU é abortivo?
A Carta de Princípios Bioéticos da Associação
Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil), resultou de um consenso
mais amplo entre as AMEs. Modificamos, basicamente, duas questões.
A primeira delas refere-se ao uso do DIU (Dispositivo
Intra-Uterino). Por que e quando admitirmos o seu uso? Ponderamos que
milhares de mulheres o utilizam, inclusive muitas companheiras de ideal
espírita e que sempre nos perguntam como fazer, diante da impossibilidade
de utilizar a “pílula anticoncepcional” e da necessidade
de espaçar a vinda dos filhos. Para elas também é
um problema complexo: estão sujeitas ou não a micro-abortos?
Na Carta de Princípios, prevaleceu um conselho
que sempre dei àquelas que me perguntavam o que fazer diante dessa
possibilidade: aconselhava-as a combinarem o método de barreira
ao uso do DIU. Na prática é o seguinte: fazer uso do condom
(camisinha) no período fértil que corresponderia a 8 ou
10 dias, na metade do ciclo menstrual. Assim, por exemplo, do 8º.
ao 18º. dias do ciclo o uso da camisinha estaria acoplado ao uso
do DIU.
Se levarmos em conta que os casos de gravidez na vigência
do DIU é menos de 0,2 % e que o condom falha em menos de 2% dos
casos, parece-nos claro que a combinação dos métodos
oferece segurança ampla e confiável. Garante, inclusive,
que, na vigência do DIU, não haja encontro entre espermatozóide
e óvulo, que é o medo maior da mulher espírita usuária
do dispositivo. Daí termos colocado como possível o uso
do DIU nessas condições.
A outra questão modificada em nossa Carta de
Princípios foi a da ortotanásia. Constatamos que o conceito
jurídico de ortotanásia é diferente do conceito médico.
Enquanto para o BioDireito, ortotanásia é eutanásia
passiva, para nós, médicos, é morte natural. Diante
desse impasse, preferimos adotar tão somente o termo morte natural,
evitando, assim, qualquer confusão ou interpretação
errônea de nossa posição bioética.
Fica, assim, explicada a necessidade desta última
versão da Carta de Princípios, que ora publicamos. Com nosso
pedido de desculpas, pedimos que os órgãos de comunicação
considerem esta como a versão definitiva. |