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PAIS DIZEM NÃO AO ABORTO
(Folha Espírita - Dezembro/2004)
Em outubro, o Superior Tribunal de Justiça cassou
a liminar que autorizava a realização de aborto em casos
de anencefalia do feto, expedida em julho deste ano pelo ministro Marco
Aurélio de Mello. A partir de então, voltou a ser proibido
o aborto nesses casos, só tendo respaldo legal os abortos em casos
de estupro ou risco de morte à mãe. Mesmo assim, recentemente,
o juiz Jesseir Coelho de Alcântara, da 1ª Vara Criminal de
Goiânia, permitiu que uma grávida de cinco meses abortasse
seu filho anencéfalo. O magistrado acatou parecer do Ministério
Público Estadual e laudo médico específico.
A sociedade voltou a debater o assunto, e muitas opiniões,
favoráveis e contrárias apareceram. A Folha Espírita
conversou com dois casais que viveram gestações especiais
e fizeram questão de dar depoimentos para sensibilizar outros pais
sobre a importância de se levar a gravidez, seja ela como for, até
o final.
Surpresa no diagnóstico
Adriana Medeiros Rocha, 30 anos, nutricionista, é
casada com Reginaldo Rodrigues Rocha, 32 anos, comerciante, há
dois anos e nove meses, depois de 11 de namoro e noivado. “Nos casamos
com tudo planejado, até o bebê desta minha primeira gravidez”,
explica Adriana.
O resultado de um exame de sangue confirmou a gravidez
e a partir daí a concretização dos sonhos, preparativos.
Com seis semanas de gestação, Adriana e o marido, que sempre
a acompanhou, ouviram o coração do bebê no primeiro
ultra-som. Foi emocionante: “o tamanho é tão pequeno
que podemos comparar a uma ervilha, mas o coração bate tão
forte que não dá para não se emocionar”, conta
Adriana.
A gravidez corria normal. Ao completar o quinto mês
de gestação, o médico de Adriana pediu o ultra-som
morfológico. Foi quando veio o primeiro diagnóstico: o bebê
de Reginaldo e Adriana, uma menina – Rafaela – sofria de anencefalia.
“Foi um balde de água gelada na cabeça, fiquei parada
sem pensar em nada. Imaginei apenas como daria a notícia aos meus
familiares e qual seria a reação deles diante disso”,
lembra.
O médico de Adriana sugeriu o aborto. E ela disse
não. “Eu disse que levaria até o fim. Eu só
pensei no amor que eu sinto por ela, e se realmente ela fosse anencéfala,
eu doaria os órgãos”, explica Adriana.
Dois meses depois, agora no sétimo mês,
Adriana repetiu o ultra-som morfológico e o resultado mudou: foi
constatada uma hidrocefalia (retenção do líquido
cérebro-raquidiano no encéfalo, que deixa a criança
com “cabeção”), que poderá ser corrigida
com uma cirurgia assim que o bebê nascer. “Nós ficamos
contentes porque no fundo do meu coração eu sabia que minha
filha estava bem”. O médico que acompanha a gravidez de Adriana
e nunca tinha presenciado um caso como este ficou surpreso e só
conseguiu dizer: “É, realmente, Deus existe!”.
Segundo Adriana, a gravidez está sendo ótima.
O bebê mexe, está com peso e tamanho normais. Perguntada
sobre como não se abater diante de um momento tão delicado,
ela respondeu: “Não vejo minha filha com nenhum problema.
O que consigo ver é o imenso amor que sinto por ela, e é
isso que cada vez mais me dá forças, pois sigo amando-a
com muita fé que ela será forte, pois Deus está conosco.
Me lembro muito da passagem em que Jesus anda sobre as águas e
é assim que estou, andando pelas águas, com muita fé”.
Ao final, um recado às mães que estão
passando por gestações especiais: “Quero dizer às
outras mães que não percam a fé em Jesus. Seus filhos
já possuem alma e sentimento e se a mãe foi escolhida para
gerar uma criança especial, vemos que ela também é
muito especial. Então, pensem antes de fazer algo que não
seja a preservação da vida. Se o bebê estiver bem,
o coração batendo e pedindo para ficar, dê a chance,
pois nada na vida é por acaso.”
Confiança em Deus
A história de Jorge Eduardo Giannasi de Mello,
30 anos, coordenador de importação, e de Jacqueline Pereira
de Mello, 28 anos, assistente-operacional, não foi muito diferente
disso. Na primeira gravidez dos dois, muita alegria, surpresas e confiança
em Deus.
O primeiro ultra-som, feito com 12 semanas, foi normal
e supertranqüilo. O feto estava quase totalmente formado. O coração
já batia forte. “Ficamos muito contentes, acompanhando os
movimentos do nenê lá dentro da barriga dela”, lembra
Jorge.
Foi no segundo ultra-som que os problemas começaram a aparecer.
Com 16 semanas, o ultra-som de rotina mostrou que o bebê de Jacqueline
e Jorge estava com problemas sérios. Foi constatado que o feto
tinha um derrame pleural (líquido em volta dos pulmões)
e hidropsia (uma bolsa de água na nuca). O ultra-som morfológico
solicitado em seguida confirmou o resultado. O quadro poderia se reverter
ou não. “Quando ficamos sabendo foi aquele choque”,
diz Jorge.
O casal foi, então, buscar ajuda no Hospital
São Paulo, com uma equipe especializada em Medicina Fetal. “Eles
não nos deram esperanças, disseram que a gravidez seria
muito perigosa para a Jacqueline e que se a criança sobrevivesse,
teria muitos problemas”, explica Jorge.
Depois do choque veio a aceitação: “Tentamos
várias alternativas, depois vimos que não teríamos
recursos, nada poderia ser feito. Achamos que se tivéssemos merecimento,
ela ficaria boa. Se isso não acontecesse, seria por vontade de
Deus. A partir daí começamos a conversar muito com a nenê
– já chamada de Letícia – dizendo que a amávamos
muito e que estaríamos esperando por ela em outra ocasião”.
A gestação apresentava risco de morte
para Jacqueline, por isso, os médicos que acompanhavam o caso sugeriram
o aborto. Mas o casal não aceitou. “Ela ficou conosco o tempo
que ela e nós precisávamos para esse aprendizado. O tempo
que Deus permitiu”.
Com 6 meses de gravidez, em um exame de rotina, constatou-se
a morte física de Letícia, ainda na barriga de sua mãe,
Jacqueline. Ela afirma que sem o amparo da religião seria muito
difícil. Para Jorge ainda falta muita informação
sobre as “coisas da vida” para as pessoas, independente da
religião, inclusive para muitos médicos que só pensam
na parte física e não se lembram da espiritual. “No
local onde fazia acompanhamento, por ser especialista em gestações
com problemas, várias vezes ouvi mães chegarem lá
com a autorização do juiz para fazer o aborto. Seria bom
que todos soubessem que ali, naquele feto, mesmo que mal formado, há
vida e sentimentos”, lembra Jacqueline. |