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RAZÕES PARA SER CONTRA O ABORTO DO ANENCÉFALO
(Folha Espírita - Agosto/2004)
À primeira vista, pode parecer que as razões
contrárias ao abortamento provocado sejam exclusivamente da alçada
da religião. Uma reflexão mais acurada, porém, demonstrará
que elas têm raízes profundas na própria ciência.
Assim, para sermos fiéis à verdade e discutirmos, sem as
amarras obliterantes do preconceito, a complexa e multifacetada questão
dos direitos do embrião, é indispensável analisarmos
os argumentos científicos contrários ao aborto.
O primeiro passo nessa busca é a descoberta do
verdadeiro significado do zigoto à luz das Ciências da Vida.
Para Moore e Persaud (2000, p. 2), “o desenvolvimento
humano é um processo contínuo que começa quando o
ovócito de uma mulher é fertilizado por um espermatozóide
de um homem. O desenvolvimento envolve muitas modificações
que transformam uma única célula, o zigoto (ovo fertilizado),
em um ser humano multicelular”. Ainda segundo os ilustres embriologistas,
o zigoto e o embrião inicial são organismos humanos vivos,
nos quais já estão fixadas todas as bases do indivíduo
adulto. Sendo assim, não é possível interromper qualquer
ponto do continuum – zigoto, feto, criança, adulto, velho
– sem causar danos irreversíveis ao bem maior, que é
a própria vida.
Mas há muito mais sobre o zigoto. É impossível
deixar de reconhecer que é uma célula extremamente especializada,
que passou pelo buril do tempo, herdeira de bilhões de anos de
evolução. Dos cristais minerais ao ser humano, as células
primitivas passaram por um longo e extraordinário percurso, desde
os procariontes aos eucariontes, dos seres mais simples aos mais complexos,
até surgirem, magníficas, nas múltiplas especializações
dos órgãos humanos. E a célula-ovo é um dos
exemplos mais admiráveis, porque encerra em si mesma, potencialmente,
todo o projeto de um novo ser, que é único e insubstituível.
Nesse sentido, a investigação sobre a
estrutura do zigoto nos leva necessariamente à discussão
sobre a origem da vida e seu significado científico, com todas
as conseqüências disso para discussões bioéticas,
morais, políticas e religiosas. Não será possível
retomar aqui toda a argumentação desenvolvida em O Clamor
da Vida (NOBRE, 2000), de modo que apresentarei unicamente alguns dos
pontos centrais envolvidos.
Reconhecemos o grande valor da Teoria Neodarwiniana
e de seus pressupostos básicos – a evolução
das espécies, a mutação e a seleção
natural – já comprovados pela investigação
científica. Ela, porém, tem se revelado insuficiente para
explicar a evolução como um todo, porque tem no acaso um
dos seus pilares. O mesmo acontece com todas as outras teorias que buscam
complementá-la, mantendo a mesma base explicativa, como as de Orgel,
Eigen, Gilbert, Monod, Dawkins, Kimura, Gould, Kauffman. Demonstrou-se,
por exemplo, através de cálculos matemáticos, a impossibilidade
estatística (101000 contra um) de se juntar, ao acaso, mil enzimas
das duas mil necessárias ao funcionamento de uma célula.
Do mesmo modo, já se constatou que o acaso é insuficiente
para explicar, passo a passo, de forma detalhada, científica, o
surgimento de estruturas complexas, como o olho, o cílio ou flagelo,
a coagulação sanguínea.
Por isso, acreditamos que a Teoria do Planejamento Inteligente,
que não tem por base o acaso e é defendida por cientistas
competentes, como o bioquímico Michael Behe, a bióloga Lynn
Margulis, e os físicos Ígor e Grischka Bogdanov, possui
argumentos científicos bem mais sólidos para explicar a
evolução dos seres vivos. Behe, em seu livro A Caixa Preta
de Darwin, afirma que não importa o nome que se lhe dê, mas,
para ele, indiscutivelmente, a vida tem um Planejador. Esta mesma conclusão
está em Deus e a Ciência, obra de J. Guitton e dos irmãos
Bogdanov. Na mesma linha de raciocínio, Margulis e Sagan (2002,
p. 23) afirmam: “Nem o DNA nem qualquer outro tipo de molécula,
por si só, é capaz de explicar a vida”.
Esses autores foram buscar suas argumentações
científicas no estudo da extraordinária maquinaria celular;
no jogo de convenções inexplicáveis, como as ligações
covalentes, a estabilização topológica de cargas,
a ligação gene-proteína, a quiralidade esquerda dos
aminoácidos e direita dos açúcares; como também,
nos cálculos matemáticos das enzimas celulares e na análise
de estruturas complexas, já referidos. Enfim, um mundo de complexidade,
que não pode ser reduzido à simples obra do acaso.
O fato é que o cientista, nem de longe nem de
perto, tem conseguido “fabricar” moléculas da vida.
Ele desconhece, portanto, como reproduzir, em laboratório, as forças
que entram em jogo nesse intrincado fenômeno. Nessas circunstâncias,
deveria adotar uma atitude mais humilde, mais reverente, diante desse
bem maior que é concedido ao ser humano, o de viver.
Pois, a cada dia, chegam novos aportes científicos
para a compreensão da verdadeira natureza do embrião. Descobertas
recentes, feitas pela neurocientista Candace Pert e equipe, demonstram
que a memória estaria presente não somente no cérebro,
mas em todo o corpo, através da ação dos neuropeptídeos,
que fazem a interconexão entre os sistemas – nervoso, endócrino
e imunológico –, possibilitando o funcionamento de um único
sistema que se inter-relaciona o tempo todo, o corpo-cérebro.
Outras pesquisas já detectaram a presença,
no zigoto, de registros (“imprints”) mnemônicos próprios,
que evidenciam a riqueza da personalidade humana, manifestando-se, muito
cedo, na embriogênese. São também notáveis
as pesquisas da dra. Alessandra Piontelli e demais especialistas que têm
desvendado as surpreendentes facetas do psiquismo fetal, através
do estudo de ultra-sonografias, feitas a partir do 4º mês de
gestação, e do acompanhamento psicológico pós-parto,
até o 3º ou 4º ano de vida da criança. O conjunto
desses e de outros trabalhos demonstra a competência do embrião:
capacidade para autogerir-se mentalmente, adequar-se a situações
novas; selecionar situações e aproveitar experiências.
Se unirmos a Teoria do Planejamento Inteligente a essas
novas descobertas, vamos concluir, baseados na ciência, que a vida
do embrião não pertence à mãe, ao pai, ao
juiz, à equipe médica, ao Estado. Pertence, exclusivamente,
a ele mesmo, porque a vida é um bem outorgado, indisponível.
Há, pois, fortes razões científicas
para ser contra o aborto, mesmo o do anencéfalo. Aprendemos, com
a genética, que a diversidade é a nossa maior riqueza coletiva.
E o feto anômalo, mesmo o portador de grave deficiência, como
é o caso do anencéfalo, faz parte dessa diversidade. Deve
ser, portanto, preservado e respeitado.
Reconhecemos que a mulher que gera um feto deficiente
precisa de ajuda psicológica por longo tempo; constatamos, porém,
que, na prática, esse direito não lhe é assegurado.
Sem ajuda para trabalhar o seu sentimento de culpa, ela pode exacerbá-lo
pela incitação à violência contra o feto, e
mesmo permanecer nele, por tempo indeterminado. Seria importante que inclinasse
seu coração à compaixão e à misericórdia,
mostrando-lhe o real significado da vida.
CNBB se posiciona contra o aborto em casos de
fetos com anencefalia
A Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil divulgou, em nota oficial assinada por seu presidente, dom Geraldo
Majella, pelo vice-presidente, dom Antônio Celso de Queiros, e pelo
secretário-geral, dom Odilo Shcherer, que a interrupção
da gravidez em casos de anencefalia do feto deveria ter sido tomada depois
de ampla reflexão pela sociedade e participação do
plenário da instituição. Para a CNBB, o ministro
Marco Aurélio “autorizou a interrupção voluntária
da gestação de uma vida humana”. A nota diz ainda:
“... a vida humana, que se forma no seio da mãe, já
é um novo sujeito de direitos e, por isso, tal vida deve ser respeitada
sempre, não importando o estágio ou a condição
em que ela se encontre”.
A visão de um delegado espírita
"Não se pode considerar
como absoluta a morte do anencéfalo. O ser humano não possui
o dom da vida, embora possa iniciá-la através da união
carnal ou fecundação in vitro. O primado do processo civilizatório
se encontra centrado na ampla defesa da pessoa no plano material e espiritual.
O respeito à vida, em qualquer nível em
que ela se encontre, é uma conquista contemporânea da civilização.
O que anima a natureza é exatamente a vida que se encontra presente
nela, em todos os seus planos – desde o vegetal até o animal.
Assim, se houver um fundamento que justifique a morte,
em qualquer estágio que a vida se encontre, não teremos
motivos para evitá-la quando ela estiver situada em seus patamares
mais elevados. Os argumentos que justificam a morte do anencéfalo
serão os mesmo que justificariam a subtração da vida
de qualquer outra pessoa – ou será que existem pessoas com
mais vida e outras com menos vida?"
Clayton Reis - delegado da Associação Brasileira dos Magistrados
Espíritas - PR.
Por que dizer não ao aborto de fetos
anencéfalos na visão de um médico espírita
"A decisão do STJ em liberar a realização
de abortos em casos de anencefalia não é correta. O anencéfalo
é um ser vivo intra-útero. Ele nasce com vida e vai a óbito
com minutos, dias, meses ou após anos. Se ele nasce vivo, o aborto
é criminoso, pois lhe ceifa a oportunidade e a experiência
da reencarnação.
Todos temos direito à vida, aos recursos existentes
e, conseqüentemente, a uma morte natural, com toda a assistência
médica. Acreditamos que há necessidade de uma maior reflexão
por parte das autoridades brasileiras, um consenso entre todos os segmentos
da sociedade e um cuidado na elaboração de medidas que venham
comprometer a vida."
Laércio Furlan – médico e professor aposentado da
UFPR; presidente da Associação Médico-Espírita
do Paraná; coordenador da Campanha VIDA, SIM À GRAVIDEZ
– Não ao Aborto
O que diz o Livro dos Espíritos?
Pergunta 344: “Em que momento a alma se une ao
corpo?”
Resposta: “... desde o instante da concepção,
o espírito designado a habitar certo corpo, a este se liga por
um laço fluídico”. |