Polêmica já ganhou a pauta da Câmara e foi tema de missa que reuniu 23 mil pessoas
(Carlos Simon, do Jornal do Estado)



Crime contra a vida? Questão de saúde pública? Tema sempre polêmico por envolver posições filosóficas, religiosas e médicas, o aborto volta a ser alvo de intenso debate com a tramitação de projeto de lei que legaliza o ato em ocasiões específicas. A discussão motivou uma grande manifestação em Curitiba, mas há vozes discordantes.

Em Curitiba, a discussão chegou à esfera local do Legislativo. Como dispõe de apoio da Igreja Católica, e portanto de parcela significativa do eleitorado, a ala dos contrários ao aborto é mais efusiva.

Na semana passada, uma dúzia de vereadores de Curitiba manifestaram apoio oficial à campanha "Um Grito Pela Vida: Diga Não ao Aborto", liderada pelo padre Reginaldo Manzotti. "Um diagnóstico médico não pode ser como uma sentença de morte para o feto", teorizou o vereador João do Suco (PSDB), que é contra o aborto em qualquer situação, mesmo em casos previstos pela lei atual (estupro ou risco de morte da mãe). Ele e o presidente da casa, João Cláudio Derosso (PSDB), são os criadores da "Frente Parlamentar a Favor da Vida, contra o Aborto".

Manzotti, que começou a carreira eclesiástica em Pinhais e virou uma espécie de "Marcelo Rossi paranaense" por divulgar a fé de maneira carismática, tomou a linha de frente contra o projeto da descriminalizaçã o do aborto. A campanha, divulgada há três meses por 138 emissoras de rádio, teve o ponto alto na tarde de sábado durante a Missa das Famílias, que tradicionalmente celebra o Dia dos Pais. A organização do evento, realizado no Marumby Expo Center, estimou a presença de 23 mil fiéis, muitos deles trazidos por caravanas oriundas do interior do Paraná, São Paulo e Minas Gerais. O Arcebispo de Curitiba, Dom Moacyr Vitti, também estava presente. O padre afirma que seu objetivo é estimular a discussão do tema por parte da sociedade, mas deixa clara sua posição.

"Argumenta-se que há clínicas clandestinas realizando aborto, mas não se justifica um erro com outro. A Igreja entende que a vida é um valor inquestionável e deve ser salvaguardada. O problema não é as crianças terem nascido, mas a pobreza crescente e a falta de penalização aos casos de estupro", opina. Manzotti afirma já ter coletado 660 mil assinaturas de pessoas contrárias ao aborto - a intenção é juntar um total de 1 milhão até o final da semana e depois enviá-las ao Congresso Nacional. Mas a posição apresentada pelo padre na Câmara não foi acompanhada de forma unânime. As vereadoras Professora Josete e Roseli Isidoro, ambas do PT, não subscreveram apoio à campanha e pregam discussão mais aprofundada sobre o tema. Roseli, que é funcionária do Hospital de Clínicas da UFPR há 23 anos, defende a consulta popular para decidir a descriminalizaçã o do aborto. A vereadora Professora Josete é favorável à mesma medida. "O debate é mais amplo do que ser filosoficamente contra ou
 a favor. Mulheres mais humildes morrem todos os anos por abortarem em clínicas de fundo de quintal", diz a parlamentar, que também é favorável ao aborto em caso de estupro. "A vítima não pode ser obrigada a manter criança gerada a partir de um crime", afirma.

A paranaense Maria Goretti David Lopes, ex-presidente e atual vice da Associação Brasileira de Enfermagem, defende de forma mais explícita a descriminalizaçã o do aborto. "É necessário compreender que as mulheres sem assistência segura continuarão morrendo ao fazerem abortos clandestinos. A Igreja discute que é a favor da vida, mas deve também ser favorável à vida da mulher", afirma. A discussão continua na quinta-feira, em Brasília, onde o "Comitê Nacional Brasil sem Aborto", organizado por membros de religiões cristãs e não-cristãs, organiza uma marcha até a Esplanada dos Ministérios contra a aprovação do projeto.