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COMO ABORDAR PACIENTES QUE TÊM A INTENÇÃO DE INTERROMPER
A GRAVIDEZ?
(matéria publicada na Folha
Espírita em setembro de 2006, por Cláudia Santos)
Jorge Cecílio Daher
Junior (AME-GO), Médico endocrinologista
Andréa Rufino, ginecologista, obstetra e mastologista,
membro da Associação Médico-Espírita (AME)
do Piauí, é também professora da Universidade Estadual
local. No dia-a-dia, além da tarefa como médica, presta
assistência às mulheres que a procuram com uma gravidez indesejada
e às que optaram, em algum momento de suas vidas, pelo abortamento
e carregam, na maioria das vezes, culpa e sofrimento pela atitude tomada.
“Quando a gente desperta para a realidade de que
somos espíritos, de que vivemos em nossos corpos para passarmos
por uma série de situações e, no final da existência
material, estarmos melhores em direção ao Cristo, começamos
a ter outro olhar para a vida, para nossas condutas como médicos.
Despertamos também nossos pacientes em relação a
isso”, conta.
Segundo ela, se antes ouvia uma paciente em relação
ao abortamento em um nível mais “social”, apontando
a ela que sua atitude poderia lhe ocasionar uma série de malefícios
físicos e emocionais e que iria sofrer, com o despertar para a
espiritualidade seu atendimento torna-se algo muito maior. “Você
sabe que o bebê que vai nascer já tinha feito um acordo com
aquela mulher de que estariam juntos. Que aquele espírito ajudou
a escolher o melhor espermatozóide para se juntar ao óvulo
e formar um corpo tal qual foi programado para aquela encarnação.
Isso tudo nos dá uma impressão tão mais grandiosa
e importante de nossas vidas que, claro, revemos nossas condutas”,
observa.
Folha Espírita –
Então, como abordar pacientes que têm a intenção
de interromper a gravidez?
Andréa Rufino – Muitas mulheres chegam ao
consultório angustiadas, dizendo que estão com atraso menstrual,
que não querem ficar grávidas, que não é o
momento. A maioria afirma ser jovem, estar estudando – algumas dizem
não saber como contariam para suas mães e como poderiam
se manter. Questiono sobre o parceiro, como é o relacionamento
deles, se estão juntos, e começo a entrar em sua parte emocional.
Pergunto por que não seria o momento adequado, ouço ela
falar sobre a vida. Acho fundamental tratar dos sentimentos, da relação
entre a mãe e o filho, reafirmando a importância de se estar
grávida. Peço calma, para que não tome nenhuma decisão
precipitada. Comento que é necessário fazer exames e verificar
se realmente está grávida. É preciso ganhar tempo
e trabalhar para que, entre a primeira consulta e a próxima, ela
já não venha com aborto resolvido.
FE – Algo a ajuda nesse caminho?
Andréa – Dependendo do período da
gravidez, o ultra-som ajuda muito. Para qualquer mulher é muito
difícil fazê-lo, ver o bebê mexendo e optar pelo abortamento.
Muitas fogem de fazê-lo, justamente por isso, porque sabem que vão
se deparar com algo que poderá fazê-las mudar de idéia.
Quando a paciente está duvidosa é fundamental ganhar tempo,
começar a falar do sentido da vida, do porquê de ela estar
ali. Pergunto sobre a sua religião, suas crenças, respeitando-as
e incentivando-a a refletir sobre a imortalidade da nossa alma e a transitoriedade
do nosso corpo material. Por isso, faço questionamentos sobre as
cobranças sociais, o materialismo dos nossos dias e o nosso egoísmo
de pensar nas nossas necessidades imediatas, desta existência. Sigo
intuições. Sei que nem eu nem meus colegas trabalhamos sozinhos,
mas somos auxiliados por equipes espirituais. Precisamos ter paciência
para despertar nossas pacientes para essa realidade. Aguardo a decisão,
respeitando o livre arbítrio, sem que a paciente se sinta julgada,
mas acolhida. Muitas perguntam se, caso resolvam fazer o aborto, posso
ajudá-las. Nesse caso, com tranqüilidade, exponho as minhas
crenças e convicções e minha decisão interior
de não poder auxiliá-las no sentido da sua realização.
FE – E as pacientes que já fizeram
aborto? Como chegam ao consultório?
Andréa – Muitas vezes, as pacientes que
já abortaram vêm querendo tratar do assunto, porque a dor
na alma está muito grande. Marcam consultas de rotina, mas acabam
se permitindo falar. Há muitas histórias de mulheres que
carregam uma culpa enorme, sentem-se perdoadas por Deus, mas não
conseguem se perdoar. Esse é o momento crucial para despertá-las
para a necessidade desse perdão. Muitas apresentam dificuldades
de relacionamento depois do aborto. Passam a apresentar dificuldades no
relacionamento sexual, sabotam-se emocionalmente e ao parceiro. Outras
vezes, sonham com o filho que teriam, desenvolvem infecções
ginecológicas de repetição. Precisamos não
julgá-las, mas sim acolhê-las, auxiliá-las, mostrar
que Deus tem misericórdia, que as ama mesmo assim. Como não
sou psicóloga, muitas vezes não consigo com algumas conversas
eliminar dores, algumas vezes muito profundas. Então, tento encaminhá-las
para esse profissional. Ser espírita não isenta algumas
mulheres de terem errado. E a dor delas, nesse caso, apresenta-se muito
maior, justamente por essa razão.
FE – As mulheres praticam o aborto
por falta de conhecimento?
Andréa – Muitas vezes sim. A falta de conhecimento
a respeito dos métodos anticoncepcionais é um primeiro ponto,
assim como o despreparo para o início da atividade sexual. Por
isso é uma oportunidade ímpar, não só de indicarmos
um método contraceptivo, mas de falar da importância que
a sexualidade tem na nossa vida. Que nós nos relacionamos com as
pessoas e com o mundo através da nossa sexualidade, energia poderosa
que é e tem sua origem no espírito. Para exercitá-la
com responsabilidade, é preciso estar emocionalmente equilibrado
e amadurecido. O exercício sexual que traz prazer é o caminho
para o amor, permitindo, também, que a vida venha. É fundamental
não perder a oportunidade de orientar sobre a proteção
contra gravidez indesejada e contaminação com doenças
sexualmente transmissíveis (DST).
FE – Como é a orientação
nesse sentido?
Andréa – Um bom exemplo é quando
a paciente diz que faz tabela, e você questiona se ela sabe que
esse método pode falhar, e ela engravidar. Se isso acontecer, levará
adiante? Muitas vezes ela tem a informação dos médicos,
mas acha que não vai acontecer com ela. Falta conhecimento a respeito
do próprio corpo, como ele funciona, e conhecimento dos métodos
anticoncepcionais disponíveis. Falta, principalmente, serenidade
e maturidade para decidir a melhor hora para iniciar a atividade sexual.
Momento valioso para o profissional médico auxiliar, esclarecer
e orientar no caminho do autoconhecimento. É o encontro de todos
nós com a nossa origem e compromisso espiritual com a vida.
FE – Informação só
basta?
Andréa – Não. Essa é a geração
de jovens mais bem informada que já houve. Mas o índice
de casos de gravidez indesejável e de DST é muito alto.
Então é assim: ela conhece os métodos, mas não
sabe como se comportar diante de um parceiro. Nesse caso, o papel do médico
não é só o de dar orientações em relação
aos métodos anticoncepcionais, mas essa acolhida, esse amparo,
no que diz respeito a mostrar que não somos só físico,
com necessidades imediatistas. Somos também espíritos com
necessidades emocionais e com compromisso com a nossa elevação
espiritual pela prática do bem e do amor. É possível
guiar as pacientes para que comecem a tomar atitudes e posturas a partir
do conhecimento espiritual que encontramos no Evangelho. Perceber seus
limites, conhecer a si próprias, compreendendo onde terminam os
seus direitos e onde começam os dos outros. Devemos informar mais
para que não abortem.
FE – E diante do aborto, o que fazer?
Andréa – Acolher é o início.
Fazer a paciente sentir-se amparada. Ajudá-la a reencontrar-se
com ela mesma e com aquele feto. A busca pelo perdão de Deus começa
pelo perdão a ela mesma e àquela criança que queria
vir à vida. É o momento de reaproximar-se de Deus, de reencontrar-se
com sua espiritualidade. Auxílio psicológico, médico
e espiritual. É a acolhida biopsicossocioespiritual. Algumas sugestões
são válidas, independentemente da religiosidade da paciente,
que podem inclusive despertá-la para o reencontro com a sua espiritualidade:
a orientação para o engajamento em um trabalho de auxílio
a mães carentes ou com mulheres que abortaram, ou ainda com crianças
órfãs é uma proposta muito boa que ajuda na reforma
e transformação íntima.
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