A VISÃO ESPÍRITA DA MATERNIDADE / PATERNIDADE ADOTIVA
(matéria publicada na Folha
Espírita em novembro de 2006)
Maternidade adotiva, um exercício de
Amor
Por Camila de Andrade
O pediatra e homeopata Marco Antônio Pereira
dos Santos é pai de dois filhos biológicos, mas seguiu
a tradição dos pais, que haviam adotado quatro, e dos
irmãos, que também se dedicaram a essa tarefa, adotando
outros sete. Assim, segundo relata, faz parte de uma família
com “mais ou menos” 25 filhos de “maternidade adotiva”.
Membro do Projeto Acalanto, um grupo de pessoas da comunidade, pais
e filhos adotivos ou não, que, voluntariamente, se propõe
a desenvolver um trabalho de esclarecimento, estímulo e encaminhamento
à adoção, em São Paulo (SP), ele fala, abaixo,
do exercício da maternidade e do quanto é importante estar
uma criança no seio da família.
Folha Espírita – O que é
a maternidade adotiva?
Marco Antônio Pereira dos Santos – A adoção
é um termo ligado à possibilidade de uma mãe que
não tem condições biológicas naturais, por
infertilidade, por uma série de situações, de,
juridicamente, conseguir filhos. Ou seja, ela tem um contexto muito
mais jurídico, do que social, uma vez que, conduzido o trâmite
legal, essa maternidade se torna igual à outra comum. Biologicamente,
a mãe não conseguiu ter um filho, mas, após o processo
jurídico da adoção, aquele filho passa a ter direitos
iguais a um herdeiro biológico.
FE – E ela é uma maternidade
especial?
Santos – Sim, é especial porque, apesar de não
ser uma maternidade biológica, gestada no útero, o é
no coração, na mente. As pessoas que se envolvem, tanto
o pai quanto a mãe e a família, têm de ter uma vontade
forte e compromisso com esse ideal, porque as dificuldades jurídicas,
familiares, sociais e psicológicas devem ser levadas em conta
e são importantes. A maternidade biológica pode ser um
acidente, pode não ter sido desejada, e a vontade de Deus pode
se expressar independentemente da nossa. Então, através
da fertilidade natural da mãe, o plano espiritual pode programar
aquela reencarnação mesmo que não seja de forma
consciente da mãe naquele momento. O momento em que a mãe
sabe que está abrigando um novo ser é de reflexão,
de compromisso com a vida, e a partir daí se estabelece a maternidade
biológica. No caso da maternidade adotiva, é uma gestação
diferente, em que não há alteração do corpo
da mulher, mas, sim, toda uma preparação, que pode ser
feita, inclusive, por grupos de adoção como o nosso, Projeto
Acalanto, onde as pessoas vão freqüentar, ouvir palestras
e se preparar para as dificuldades que podem surgir, já que a
maternidade e a paternidade adotivas são diferentes da biológica.
FE – Qual a proposta básica
do Acalanto?
Santos – Evitar a institucionalização de
menores e prevenir o seu abandono e marginalização. Para
isso, promove um elo entre as crianças desassistidas e núcleos
familiares estruturados, aptos a ampará-las.
FE – Como a adoção
chegou à sua vida?
Santos – Eu já tinha dois filhos biológicos
e quis ampliar esse relacionamento abrindo a possibilidade de resgatar
pendências que eu tenha deixado em outras vidas e que se manifestaram
através da maternidade.
FE – Você já foi criticado
por conta disso?
Santos – A crítica é natural da ignorância,
porque quando você não vive uma experiência é
natural que você critique aquela pessoa, que talvez queira viver
aquela experiência. Meus pais já tinham adotado, e depois,
meus irmãos e eu. Temos mais ou menos 25 pessoas ligadas à
experiência adotiva em nossa família, todas elas agradáveis
e que nos estimularam a repeti-la.
FE – Como funciona isso espiritualmente?
O espírito escolhe quem vai reencarnar e adotar outro?
Santos – É sempre uma programação
diferente em cada caso. Naquelas pessoas que já trabalham mais
com a idéia adotiva eles incluem a adoção no seu
planejamento familiar. Várias pessoas têm o desejo secreto
de adotar, mas, ao chegar aqui na Terra, em razão das dificuldades
econômicas, sociais e familiares, elas se esquecem um pouco desse
projeto, que fica escondido em suas mentes como um desejo secreto que
pode ser transformado depois.
FE – Afinal, todas as mulheres encarnadas
precisam ser mães?
Santos – Essa é uma excelente pergunta. Existem
quatro oportunidades, como espírito, para os serviços
ligados à maternidade. Se eu for homem encarnado não posso
ser mãe, se for desencarnado também, tanto homem quanto
mulher. Ou seja, como mulher encarnada, tenho a única possibilidade
de ser mãe, com um índice de 25%. Assim, biologicamente,
nasço com os implementos próprios da maternidade –
seios, útero, ovário, etc. Isso é uma certa orientação
da espiritualidade que aquele indivíduo deve aproveitar aquela
encarnação para evoluir mais rapidamente. E a maternidade
é uma oportunidade de evolução maravilhosa.
FE – Então, o encontro da
família adotiva não é casual?
Santos – Na maioria das vezes, para não dizer
todas, é um planejamento superior. Veja bem, se uma criança
nasce para ser filho biológico de A + B, mas, infelizmente, é
abandonada, pode haver uma reengenharia, sim. Tem gente que prefere
deixar aquele compromisso pendente, mas em uma próxima encarnação
terá de resolvê-lo. É como uma matéria da
faculdade: você não pode passar de um ano para outro se
deixar uma pendência. Essa visão é muito mais ampla
que a lei do carma, da reencarnação, de causa e efeito,
que nos abriga a ser pais. Não existe obrigação,
existe a lei do amor, que nos oferece uma oportunidade.
FE – Como o tratamento espiritual
pode ajudar nessas pendências?
Santos – A convivência com a criança adotiva
não é fácil. Aqueles que pensam que é só
adotar e as estão resolvendo estão errados. A adoção
começa ali, não termina ali. Ou seja, a partir de determinado
momento a criança passa a ser filho. Você vai com ela para
casa para construir uma família, algo que não é
tão simples. Quando temos filhos biológicos é mais
difícil ainda, porque temos de encaixar aquele elemento num planejamento
que já existia. Além do lado idealista, existe o econômico,
psicológico e afetivo, que precisam ser bem dimensionados. Mas
eu diria que é uma experiência importante, que a casa espírita
ajuda muito, através do passe, da água fluidificada, de
tratamento desobsessivo. Assim como existe programação
espiritual positiva, às vezes, também pode existir negativa,
ou seja, podem não querer que aquela criança chegue à
nossa casa. Ela pode trazer os “amigos” que querem evitar
a sua convivência harmônica. Tratamentos psicológico,
pediátrico e homeopático ajudam bastante.
FE – Que mensagem o senhor daria
para aqueles que querem adotar, mas têm dúvidas e medo?
Santos – É uma experiência importante na
vida do espírito, vai lhe trazer muito amadurecimento, oportunidade
de exercitar a maternidade, além dos laços biológicos.
Nós precisamos amar a todos, sentir que Deus é nosso pai
e todos nós somos irmãos. Então, a maternidade
ou paternidade adotiva é um exercício de amor.
Conheça mais sobre o trabalho do Projeto
Acalanto
Para conhecer mais sobre o Projeto Acalanto acesse o site http://www.adocao.com.br/acalanto.htm
ou fale com a entidade através do telefone (11) 3976-1160. Ela
fica na rua Madre Nineta Junata, 126, Freguesia do Ó, São
Paulo (SP).