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NEM SEMPRE É ALUCINAÇÃO
(matéria publicada na Folha
Espírita em junho de 2004)
A Folha Espírita transcreve
entrevista da Dra Marlene Nobre (Presidente da AME-Brasil e AME-Internacional)
à revista Psychic World e realiza entrevista com o Dr. Sérgio
Felipe Oliveira (AME-SP), psiquiatra
Psychic World – Dra.
Marlene, gostaria de colocar uma questão crucial para você,
sobre o que é comumente chamado de esquizofrenia. Hoje, quando
alguém ouve vozes é tido como esquizofrênico, recebe
fortes sedativos e, freqüentemente, é internado em hospitais
de unidades psiquiátricas, registrado como mentalmente instável.
Uma definição praticamente irreversível e para o
resto de sua vida. De fato, freqüentemente, não o é
de verdade e não recebe tratamento... mas recebe, por períodos
indefinidos, sedativos que fazem estragos. Acho isso uma situação
intolerável... O que você me diz sobre isso?
Marlene Nobre – Bem, o que ocorre,
infelizmente, no curso médico, na prática médica,
é algo que realmente não se compreende muito bem. Por quê?
Porque a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma
que saúde é o estado de completo bem-estar do ser humano
integral: biológico, social, ecológico e espiritual. Então,
saúde é definida pela OMS como sendo o equilíbrio
entre fenômenos orgânicos, psíquicos, sociais e espirituais.
No entanto, na prática, os médicos não consideram
todos esses fenômenos, mas tão somente os orgânicos
ou biológicos. Podemos perguntar, em qualquer país, o que
ensinam as escolas de medicina e constataremos que os médicos não
são alertados para os problemas psicológicos e espirituais
do paciente, eles restringem-se às reações orgânicas,
como se o ser humano fosse reduzido tão somente ao corpo físico.
Embora o Código Internacional de Doenças (CID), que é
conhecido no mundo todo, no número 10, questão F 44.3, contemple
a existência dos estados de transe, fazendo a distinção
entre os normais, os que acontecem por incorporação ou atuação
dos espíritos, dos que são patológicos, provocados
por doença, a maioria dos médicos não leva isso em
consideração. No Tratado de Psiquiatria de Kaplan e Sadock,
um dos mais consultados pelos psiquiatras, no capítulo dedicado
ao estudo das personalidades, há também a distinção
entre as personalidades que recebem a atuação de espíritos
e as dos outros que são doentes. A Psiquiatria já faz, portanto,
a distinção entre o estado de transe normal e o dos psicóticos
que seriam anormais ou doentios. Isso, portanto, precisaria ser mais discutido
com os colegas, principalmente, com aqueles que não consideram
a possibilidade de comunicação dos espíritos com
os encarnados. Por quê? Porque já há a contemplação
nos próprios compêndios da Medicina a respeito da possibilidade
de comunicação dos espíritos. Outro aspecto também
é a obra de Carl Gustav Jung, que estudou o caso de uma médium
que recebia espíritos por incorporação nas sessões
espíritas. Desse modo, constatamos que já existe uma abertura
para o estudo do espírito dentro do currículo da Psicologia
e da própria Medicina. O que ocorre é que a preparação
dos médicos ainda é extremamente reducionista e, com essa
visão estreita, são levados a considerar apenas e tão
somente os fenômenos orgânicos. Quanto ao exemplo referido
por você, nós realmente nos constrangemos ou ficamos tristes
com a conduta dos colegas que, habitualmente, rotulam todas as pessoas
que dizem ouvir vozes como psicóticas e tratam-nas com medicamentos
pesados pelo resto de suas vidas. Ficamos penalizados com uma situação
como essa, porque existe uma porcentagem de pessoas que são consideradas
psicóticas por ouvirem espíritos e que, na realidade, são
médiuns. Cremos que, na História da Moléstia Atual
do paciente, deveriam constar também, além dos sintomas
orgânicos, os psicológicos e espirituais, a fim de que pudéssemos
fazer a distinção, evitando, assim, que os médiuns
sejam taxados de psicóticos para o resto de suas vidas. Muitos
deles poderiam encontrar um caminho mais fácil para a cura, a partir
do momento em que é diagnosticado um caso de obsessão ou
de comunicação espirítica. Acredito que só
quando tivermos uma Medicina que leva em consideração o
ser integral, espírito/corpo, é que teremos possibilidade
de abertura para entender quando se trata de um ou de outro caso.
PW – Para a quantidade de
pessoas que começam a ouvir vozes, qual é o seu conselho?
Marlene – É difícil
dizer, quando você está em outro país, onde não
se conhece muito bem o procedimento, tanto do lado médico quanto
espiritual. Mas é preciso ir, pouco a pouco, oferecendo material
de estudo, livros, para que a população se informe também
a respeito da obsessão, da possibilidade de se ouvir espíritos.
Esse é um fenômeno corriqueiro, banal, comum a muitas pessoas.
Então, à medida que a divulgação vai sendo
feita, através de livros ou de palestras e cursos, há a
possibilidade de se informar mais à população. E
as famílias passam a conhecer mais o problema. Não é
nada fácil, porque em um país como este que respeitamos
tanto, de tantas tradições, de tanto progresso, o Espiritismo
é praticamente ignorado, mas já há por parte de alguns
médicos e psicólogos um entendimento do que seja a mediunidade,
no caso mais específico, a obsessão. Talvez, então,
fosse interessante que houvesse troca de impressões e de idéias
entre o movimento espírita e os profissionais que já aceitam
a mediunidade, de modo a oferecer aos obsedados os recursos terapêuticos
espirituais indicados para esses casos.
Folha Espírita –
Como distinguir alucinação por transtorno mental da que
ocorre no processo obsessivo?
Sérgio Felipe de Oliveira –
A obsessão espiritual oficialmente é conhecida
em Medicina como possessão e estado de transe. O Código
Internacional de Doenças – CID 10, item F 44.3 – qualifica
estado de transe e possessão como a perda transitória da
identidade com manutenção de consciência do meio ambiente.
Essa situação é considerada doença quando
a pessoa não tem controle. Os casos em que a pessoa entra em transe
durante os cultos religiosos e sessões mediúnicas não
são considerados doença. A alucinação é
um sintoma que pode surgir tanto no transtorno mental anímico,
a partir de neuroses graves que marcam o subconsciente, quanto na interferência
de fatores externos. Esses fatores externos podem ser químicos
e orgânicos, como na ingestão de drogas ou nas desordens
orgânicas – febre muito alta, uremia, desordens cerebrais,
etc. – ou espirituais. A interferência de uma personalidade
intrusa, a obsessão espiritual, pode desajustar a percepção
da realidade levando a alucinações. A pessoa pode ter alucinações
e ainda assim sustentar a crítica da razão – ela sabe
que está alucinando ou pode perder a crítica da razão
julgando ser verdadeira aquela falsa realidade. Um dia, um paciente mergulhou
no rio Tietê diante da alucinação de que estaria numa
bela praia. Nesse caso, temos o transtorno dissociativo psicótico
ou o que popularmente se chama de loucura. O médico deve inicialmente
fazer o diagnóstico da condição orgânica para
depois estabelecer diagnóstico diferencial entre o transtorno dissociativo
por estado de transe ou possessão, de um caso de transtorno dissociativo
psicótico. O manual de estatística de desordens mentais
da Associação Americana de Psiquiatria – DSM IV –
alerta que o clínico deve tomar cuidado para diagnosticar erradamente
como alucinação ou psicose casos de pessoas de determinadas
comunidades religiosas que dizem ver ou ouvir espíritos de pessoas
mortas porque isso pode não significar uma alucinação
ou psicose. A distinção entre alucinação,
clarividência ou clariaudiência é uma situação
bastante complexa.
FE – Como distinguir
esquizofrenia da obsessão?
Sérgio Felipe de Oliveira –
Na verdade, temos de discriminar no diagnóstico qual o papel da
obsessão espiritual na doença que a pessoa está vivendo,
já que todo transtorno psicótico como a esquizofrenia possui
o componente obsessivo-espiritual.
FE – É possível
saber em que proporção o processo obsessivo permeia os transtornos
psicóticos, como, por exemplo, no caso das esquizofrenias?
Sérgio Felipe de Oliveira –
Nesse caso, a melhor forma é a prova terapêutica. Uma vez
acertado o tratamento medicamentoso e psicoterápico, a associação
do tratamento espiritual, sobretudo a magnetização e a desobsessão,
nos dará a proporção do envolvimento espiritual.
Casos em que há uma predominância do fator obsessivo-espiritual,
a melhora com a magnetização e desobsessão chega
a ser espetacular, trazendo novos horizontes para a Psiquiatria. Nos casos
em que há a predominância anímica ou orgânica,
a melhora está mais associada à transformação
da pessoa ou seu estado orgânico de forma bem caracterizada. Julgamos
importante que o médico e o psicólogo que acompanham casos
nessa profundidade passem pelo processo de magnetização
e desobsessão a fim de se desvencilhar de possíveis envolvimentos
com as energias e os obsessores que acompanham o caso.
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