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SONAMBULISMO: INDEPENDÊNCIA DO ESPÍRITO
(matéria publicada na Folha
Espírita em março de 2005)
A Folha Espírita entrevistou
o Dr. José Roberto Pereira Santos (Secretário da AME-Brasil),
reumatologista e médico intensivista
Médico formado pela Universidade Federal do Espírito
Santo, com residência em Medicina Interna e Reumatologia no Hospital
dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, José Roberto Pereira
Santos, 47 anos, é especialista em Reumatologia pela Sociedade
Brasileira de Reumatologia e em Medicina Intensiva pela Associação
de Medicina Intensiva Brasileira. Atualmente, é o coordenador e
médico de Rotina da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Antônio
Bezerra de Farias, em Vila Velha (ES), e secretário da Associação
Médico-Espírita do Brasil. Nesta entrevista à Folha
Espírita ele fala sobre o sonambulismo, que, após vários
questionamentos do meio espírita, tornou-se seu objeto de estudo.
Folha Espírita – O
que é o sonambulismo?
José Roberto Pereira Santos – A palavra
sonambulismo origina-se do latim somnus = sono + ambulare = marchar, passear.
O transtorno de sonambulismo diz respeito a episódios repetidos
de comportamento motor complexo iniciado durante o sono, freqüentemente
durante a primeira terça parte do sono. Nos episódios leves,
o indivíduo pode simplesmente sentar-se na cama, olhar em volta
ou se remexer no leito. Mais tipicamente, o indivíduo levanta-se
da cama, podendo ir ao banheiro, sair do quarto, subir ou descer escadas
e mesmo sair de casa. Pode usar o banheiro, comer e falar durante os episódios,
que duram, em sua maior parte, de alguns minutos a meia hora. No entender
da Medicina, o sonambulismo é tratado como uma parassonia. As parassonias
são fenômenos físicos compreensíveis, que acompanham
o sono e envolvem atividade muscular esquelética ou mudanças
do sistema nervoso autônomo, ou ambas.
FE – E pelo lado espiritual?
Santos – Segundo o conhecimento trazido pelos espíritos
(O Livro dos Espíritos, questão 425), o sonambulismo “é
um estado de independência do espírito (emancipação
da alma), mais completo do que no sonho, estado em que maior amplitude
adquirem suas faculdades. A alma tem então percepções
de que não dispõe no sonho, que é um estado de sonambulismo
imperfeito”. Esta é a descrição do sonambulismo
natural, que é um fenômeno produzido espontaneamente. Existem
algumas pessoas dotadas de uma organização especial que
podem, através de ações magnéticas, entrar
em estado sonambúlico, que nesse caso é denominado sonambulismo
magnético.
FE – Por que as pessoas
que são sonâmbulas levantam, fazem coisas, mas não
se lembram de nada depois?
Santos – Uma das características do sonambulismo
é que, ao ser despertado do episódio, ou pela manhã,
quando acorda, o indivíduo tem amnésia para o episódio.
Tal fato não tem uma explicação satisfatória
pela ciência médica. De acordo com as elucidações
espíritas, no sonambulismo, o espírito está na posse
plena de si mesmo. Os órgãos materiais, achando-se de certa
forma em estado de catalepsia, deixam de receber as impressões
exteriores (O Livro dos Espíritos, questão 425). O sonâmbulo
age sob a influência do seu próprio espírito; é
sua alma que, nos momentos de emancipação, vê, ouve
e percebe, fora dos limites dos sentidos (O Livro dos Médiuns,
item 172). No sonambulismo, portanto, o cérebro físico não
é envolvido nas percepções do episódio. Quem
percebe é o corpo espiritual, e é uma percepção
bem mais ampliada do que no sonho, em que as percepções
têm a participação do cérebro físico.
Como não há registro cerebral das impressões, o indivíduo
não se recorda de nada, ao acordar.
FE – Existe alguma
semelhança entre sonambulismo e atividade mediúnica inconsciente?
Se sim, explique o que acontece com o espírito nos dois casos...
Santos – O sonâmbulo age sob a influência
do seu próprio espírito e exprime o seu próprio pensamento,
enquanto o médium inconsciente exprime o pensamento de outrem,
ou seja, é instrumento de uma inteligência estranha. Segundo
O Livro dos Médiuns (item 172), o espírito que se comunica
com um médium também o pode fazer com um sonâmbulo.
Muitos sonâmbulos vêem perfeitamente os espíritos e
os descrevem com tanta precisão quanto os médiuns videntes.
Podem confabular com eles e transmitir-nos seus pensamentos (ver item
173 de O Livro dos Médiuns). Nesse caso, pode-se considerar o sonambulismo
como uma variedade da faculdade mediúnica, mas não uma mediunidade
inconsciente. O processo de sonambulismo magnético, induzido por
passes energéticos, é utilizado por alguns grupos mediúnicos,
mormente aqueles que têm treinamento com a técnica da apometria
(desdobramento magnético), para intensificar as percepções
medianímicas dos médiuns.
FE – Ouvimos muito
falar que as pessoas sonâmbulas são, geralmente, adolescentes.
Isso é verdade? Por quê?
Santos – Não. O sonambulismo ocorre
com maior freqüência entre os 4 e 12 anos de idade, e sua ocorrência
diminui a partir dos 15 anos, sendo mais raro no adulto. Como causa do
sonambulismo no adulto, devem ser afastados alguns distúrbios médicos
como: síndrome da apnéia do sono, uso ou abuso do álcool,
doença febril, privação do sono, gravidez e medicamentos
específicos (carbonato de lítio e agentes com efeitos anticolinérgicos).
FE – Mas há
uma explicação sobre o porquê de ocorrer com maior
freqüência entre 4 e 12 anos?
Santos – Não li, até hoje, nenhuma
explicação para essa ocorrência, mas com o conhecimento
espírita entendemos que nada ocorre por acaso e nenhum atributo
da alma (nesse caso o sonambulismo) aparece para prejuízo de alguém.
Acredito que a ocorrência do processo em crianças é
uma oportunidade de aprendizado do espírito, na fase infantil da
encarnação (em que se encontra mais influenciável
aos exemplos e ensinamentos), nos momentos de maior desprendimento espiritual
do sonambulismo, em que pode receber instruções e diretrizes
dos bons espíritos para uma melhor evolução.
FE – O sonâmbulo
corre riscos? Deve haver sempre alguém por perto? Se sim, por quê?
Santos – Riscos existem. Acidentes como quedas
de janelas e de escadas, ou acidentes com objetos pontiagudos ou de vidro
podem ocorrer. Não é sempre que os pais percebem as “caminhadas”
da criança e, portanto, alguns cuidados devem ser tomados para
garantir a segurança do sonâmbulo: evitar o uso de beliches
e camas altas, trancar portas que possam levar as crianças para
fora de casa, fechar ou colocar grades em janelas, impedir o acesso para
escadas e esconder objetos pontiagudos ou que possam machucar as crianças.
FE – Como ficam essas
crianças que, durante o sonambulismo, se atiram de prédios,
vindo a desencarnar? Não existe proteção espiritual
nesse caso?
Santos – A ocorrência de traumatismos
durante o sono ocorre geralmente em adultos. Nesses casos deve ser afastada
a associação com a ingestão de álcool. Nos
casos de crianças é importante recordar que elas são
espíritos encarnados com um passado de realizações
positivas e negativas. No momento do sonambulismo, estado em que a alma
encontra-se mais emancipada do que no sono, a alma desprendida, caso esteja
em consonância vibratória com as regiões espirituais
inferiores, pode sofrer maior interferência de espíritos
obsessores, através de técnicas hipnóticas, que influenciam
o espírito do sonâmbulo no comando da atividade mecânica
do seu corpo físico, conforme as suas orientações.
Por isso, devemos recomendar às crianças sonâmbulas
e aos seus pais a prática da oração antes do sono,
solicitando a proteção dos bons espíritos, bem como
uma vivência familiar diária, baseada em uma orientação
cristã. O culto evangélico no lar, qualquer que seja a orientação
religiosa da família, é um excelente instrumento de equilíbrio
familiar, colaborando de forma positiva para uma melhor ambiência
em que vive o sonâmbulo. |