MATE! EM NOME DA QUALIDADE DE VIDA

(por Gerson Faria em 28 de março de 2007 , extraído do site Mídia Sem Máscara)

Ela não poderá ter vida independente. Não poderá ter uma vida normal. Não tem chances de vida social. É uma vida vegetativa. Uma vida sem vida. É uma exceção à regra. Uma anomalia. É um tronco cerebral. É um custo social.

Leio na Folha :

"A Marcela é uma exceção. Sobrevive por uma aposta de intensa medicalização para transformá-la em heroína. Se tivesse tido alta do hospital, provavelmente já estaria morta".

E ainda:
"Para a advogada Débora Diniz e a médica Fátima Oliveira, o caso suscita outro tipo de debate: até quando o Estado deve usar recursos médicos e tecnológicos para manter viva uma pessoa sem chances de vida social'. Todos os recursos que estão sendo utilizados para manter este tronco cerebral funcionando são uma imoralidade diante da falta de UTIs neonatal', diz Fátima".
Inicialmente, essa médica deveria ser processada em regra por chamar um ser humano de 'tronco cerebral'. Fosse minha a filha é o que eu faria.

Em segundo lugar, sua afirmação vai frontalmente contra o famigerado juramento de Hipócrates, que costumava ser:
(...) Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.(...)

Confesso minha ignorância. Não conheço o status atual do ativismo pró-aborto, a ponto de desejarem mudar o juramento acima e enfiar uma tal perspectiva de gênero e direitos humanos goela de Hipócrates abaixo. Aparentemente é um juramento pro forma.

Em terceiro lugar, é a utilização do velho senso de injustiça social, no afã de pôr cidadão contra cidadão, no melhor estilo do sindicalismo, do nazismo e do comunismo. Segundo afirmam acima, é absolutamente imoral manter o que chamam de tronco cerebral funcionando, escassos os recursos para UTIs neonatal. Adolf Hitler e seus cientistas tinham bem claro qual ser humano merecia participar dessa categoria ou não. No Estado do III Reich, julgava-se com base em métodos científicos, considerados avançados para a época, quem era um amontoado inútil ou quem merecia deixar algum legado na face da Terra.

Ora, por que tal afirmação não suscita a mesma reação, quando vinda da boca de Débora Diniz ou Fátima Oliveira e da boca de Adolf Hitler? O conteúdo é o mesmo. Há seres humanos que merecem viver e seres humanos que não merecem nem ser chamados de seres humanos. Creio que o problema seja devido à leitura histórica feita de Adolf Hitler pela mídia, posicionando-o como o mal inultrapassável, limite, o píncaro da crueldade. Nada pior que Adolf Hitler poderia existir, pensamos. E quando vemos algum indivíduo laureado, embora muitas vezes low profile, emitindo a mesma afirmação atroz não enxergamos aí o mesmo mal, ainda que potencial. Precisaríamos ver a tortura física realizada para termos a imagem do mal? Não deveríamos ser capazes de descartá-lo antes de sua realização? Teríamos que assistir aos vídeos do Dr. Bernard Nathanson para sentir a dimensão da perversidade?

Afirmam que dispender recursos do Estado com um tronco cerebral é imoral. Moral seria dar fim logo ao problema? Negar alimentação? Negar oxigênio, assim como fazem com abortos tardios falhados?

E, como bons ativistas que são, fingem estar preocupados com a manutenção da vida. Para fins de pesquisas e afirmações desse calão, o grupo ativista do qual Débora Diniz é diretora, o Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero - ANIS, recebeu ao menos US$280.000,00 em 2004 e 2007 apenas da Fundação Ford, como pode ser visto abaixo, ou no site:

Organization: "Institute of Bioethics, Human Rights and Gender"
Purpose: For policy monitoring and public debate on bioethics and sexual and reproductive rights
Location: BRAZIL
Program: Knowledge, Creativity and Freedom
Unit: Education, Sexuality, Religion
Subject: Sexuality and Reproductive Health
Amount: $130,000
Year: 2004
Organization: Institute of Bioethics, Human Rights and Gender
Purpose: For policy monitoring and public debate on bioethics and sexual and reproductive rights
Location: Brazil
Program: Knowledge, Creativity and Freedom
Unit: Education, Sexuality, Religion
Field: Sexuality and Reproductive Health
Amount: $150,000
Year: 2007

Creio que essa quantia daria para equipar algumas UTIs desse tipo, preocupadas como estão nossas ativistas.

Abrindo-se a porta da qualidade biológica, chegaremos ao ponto crítico da vida útil e da vida inútil. Simone de Beauvoir problematizou o dilema das "bocas inúteis". Débora Diniz quer pôr em discussão a validade de se permitir a existência de um ser humano se esse não possuir desde o início uma capacidade futura observável de vida social. Ora, as sociedades mudam. Imagine uma sociedade onde antropólogos fossem considerados inúteis, dispendiosos e identificáveis desde cedo. Mereceriam eles viver ou não? E o que dizer dos homossexuais, fosssem eles identificáveis na barriga? O Estado deveria simplesmente dizer "não podemos gastar recursos com esses pervertidos, pois é muito provável que morram cedo de AIDS e outras muitas doenças de uma vida inútil de devassidão"? Obviamente, não.

E além de tentar prever o futuro de um ser humano, quem deve decidir se ele merece viver ou não é o Estado? Segundo sua tese, sim. E os ativistas de 'gênero' ainda têm o cinismo e a empáfia de chamar os cristãos de irracionais e fundamentalistas!
Muitos seres humanos já foram vítimas da ideologia da "qualidade total" darwinista. Continuando assim, logo serão os gordinhos. Segundo a tese acima, para privá-los do sofrimento de possíveis problemas respiratórios e cardíacos, diabetes, melhor seria que não chegassem a tê-los. E o Estado economizaria recursos. Altamente moral.