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BULLYING, O TERROR SILENCIOSO
(matéria publicada na Folha
Espírita em junho de 2005)
Uma abordagem sobre o fenômeno
O termo bullying surgiu na Noruega, na década
de 80, e é originário da palavra inglesa bully, que quer
dizer ameaçar, intimidar, amedrontar, tiranizar, oprimir, maltratar.
O primeiro a relacionar a palavra ao fenômeno foi Dan Olweus, professor
da Universidade da Noruega. Ao pesquisar as tendências suicidas
entre adolescentes, Olweus descobriu que a maioria desses jovens tinha
sofrido algum tipo de ameaça e que, portanto, bullying era um mal
a combater.
Embora a denominação seja recente, o fenômeno
é mais antigo que a própria escola e se repete continuamente
em todo o mundo. Não é restrito a uma instituição
específica. Pode ocorrer em escolas de todo o tipo: primárias,
secundárias, rurais, públicas ou privadas. Onde há
uma criança ou um jovem sofrendo qualquer tipo de pressão
psicológica, atitude agressiva intencional e repetida, sem motivação
evidente, o fenômeno está presente e precisa ser tratado
com a seriedade que merece.
O bullying pode parecer uma brincadeira de amigos pela
sutileza com que é conduzido pelos agressores. O que o distingue
das brincadeiras próprias do desenvolvimento infanto-juvenil e
regras de boa convivência é a crueldade com que é
exercido. As vítimas, em geral, são crianças e jovens
que apresentam algumas diferenças em relação ao grupo
ao qual estão inseridas. Por sua vulnerabilidade, passividade,
falta de recursos ou habilidade para reagir, são os alvos mais
visados pelos agressores. Os resultados do desequilíbrio emocional
que passam a viver os tornam inseguros com relação à
auto-estima. Impedidos de pedir qualquer tipo de ajuda, chegam a interiorizar
os “castigos” que lhes são impostos, julgando-se merecedores
deles. Simulam doenças, que acabam tornando-se verdadeiras, entram
em estados depressivos deploráveis e perdem o prazer de viver.
O problema, em grande parte dos casos, arrasta-se pelo resto da vida,
tornando-os adultos com sérios problemas no trabalho, vida afetiva
e social.
Com o avanço tecnológico, outra forma
de bullying cresce vertiginosamente. É o “bullying digital”.
O agressor ultrapassa os muros da escola e invade a casa do agredido através
da internet. Ferramentas como blogs, flogs, chats e e-mails tornam esse
tipo de intimidação mais humilhante publicamente. Amplia
o universo de gozações e fotos constrangedoras, que passam
a circular em um público muito maior. Esse público, por
sua vez, testemunha silenciosamente, pois mesmo afetado por esse clima
de tensão, torna-se inseguro e amedrontado com o fato de poder
se tornar a próxima vítima.
Estatísticas
Estudos recentes mostram que 7% a 35% das crianças em
idade escolar, em todo o mundo, sofrem com o problema e passam a fazer
parte das estatísticas de violência. Em matéria publicada
no jornal espanhol El Pais, em 1977, na Grã-Bretanha, o bullying
foi o responsável pelo suicídio de 766 menores. Nos Estados
Unidos, o fenômeno chegou a ser apontado como a causa principal
da morte de 13 alunos da escola Columbine, na cidade de Littleton, em
1999. Na Inglaterra, no começo do ano passado, o suicídio
de Jevan Richardson, de 10 anos, foi atribuído ao bullying. O Brasil
não fica fora dessas estatísticas. Em janeiro de 2003, o
adolescente Edimar de Freitas, de 18 anos, após ferir seis colegas,
um zelador e a vice-diretora, suicidou-se, na pacata cidade de Taiuva,
interior paulista, após 11 anos de humilhações e
sofrimentos na escola. Em fevereiro de 2004, na cidade de Remanso, interior
baiano, um adolescente de 17 anos, vítima das mesmas humilhações,
matou seu principal agressor (um garoto de 13 anos), a secretária
do curso de informática, feriu três pessoas e só não
conseguiu suicidar-se, como havia planejado, por ter sido dominado por
um colega.
Porém, não são somente os agredidos
que merecem cuidados especiais. Os agressores, na sua grande maioria,
não cometem os delitos por pura maldade. Precisam ser identificados
e tratados. São indivíduos que apresentam problemas psicológicos
e sociais, decorrentes de traumas e experiências negativas durante
a infância ou juventude. Em geral, sentem dificuldade de relacionamento
com outras crianças, gostam de experimentar continuamente a sensação
de poder, sofrem ou sofreram humilhações e abusos de toda
ordem por parte dos pais ou outros adultos encarregados de sua educação
ou cuidados, ou vivem sob constante e intensa pressão para que
tenham sucesso em suas atividades. Sem cuidados especiais, podem desenvolver
características que os levem à delinqüência e
à criminalidade.
Inúmeros programas estão sendo desenvolvidos,
por educadores, psicólogos, psicopedagogos e médicos, para
a redução do problema, porém há uma unanimidade
entre todos: só com união e interatividade família–--escola
o mal pode acabar. No que diz respeito à escola, professores e
orientadores educacionais devem incentivar e promover discussões
sobre o assunto e dar oportunidade para os alunos expressarem seus sentimentos.
Profissionais de educação devem ser treinados para que tenham
consciência da gravidade do problema, pois, não muito raramente,
acabam se envolvendo e, sem perceber, chegam até a reforçar
e legitimar a violência, usando apelidos e rindo junto com as brincadeiras
alheias.
No caso da família, o apoio deve ser irrestrito,
pois é no seio familiar que se inicia o processo educacional. Lembrando
a orientação dos espíritos superiores em O Livro
dos Espíritos: “A infância é um período
de repouso do espírito”. “Encarnado, com o objetivo
de se aperfeiçoar, o espírito, durante esse período
(infantil), é mais acessível às impressões
que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem
contribuir os incumbidos de educá-lo”. Emmanuel, no livro
O Consolador, orienta que até os 7 anos de idade o espírito
ainda se encontra em fase de adaptação para a nova existência
e recorda mais vivamente o mundo que deixou para trás, tornando-se,
desse modo, mais suscetível de renovar o caráter e moldar
novos caminhos.
Segundo a educadora e pesquisadora Tânia Zagury,
“a família deve apoiar a escola e trabalhar a questão
dos limites com segurança, afirmação ética
dos filhos, a não-aceitação firme ao desrespeito
aos mais velhos e mais fracos. Deve reassumir o quanto antes o seu papel
de formadora de cidadãos, abandonando a postura superprotetora
cega e a crença de que amar é aceitar toda e qualquer atitude
dos filhos, satisfazer todos os seus desejos, não criticar o que
deva ser criticado e nunca responsabilizá-los por atitudes anti-sociais.
Enquanto é tempo...”.
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