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DROGAS: VIVA FELIZ, SEM ELAS!
(Matéria publicada na Folha Espírita de dezembro de 2006)
Cláudia Santos entrevista a psicóloga Maria
Heloísa Bernardo, Diretora do Centro de Tratamento Bezerra de Menezes,
que atua na prevenção, tratamento e reintegração
de dependentes químicos
O uso abusivo de drogas não deve mais ser considerado
um fenômeno marginal, isolado ou restrito a grupos específicos
da sociedade. Estatísticas de fontes especializadas, como a Organização
Mundial de Saúde, por exemplo, indicam crescimento do consumo de
substâncias psicoativas nos centros urbanos de todo o mundo, atingindo
cerca de 10% das populações, independentemente de idade,
sexo, nível de instrução e poder aquisitivo.
Segundo a psicóloga Maria Heloísa Bernardo, diretora-técnica
do Centro de Tratamento Bezerra de Menezes, em São Bernardo do
Campo (SP), que atua na prevenção, tratamento e reintegração
de dependentes químicos, a grande disponibilidade de substâncias
psicoativas, associada à degeneração dos verdadeiros
valores da vida, “éticos e morais”, juntamente com
a desagregação da família, têm contribuído
para o cenário atual, que envolve o uso, abuso e a dependência
de substâncias, assim como o aumento no número de dependentes
químicos.
Crianças e jovens são a faixa etária que apresenta,
atualmente, maior vulnerabilidade. “Nesse período do desenvolvimento
humano, as estruturas física, psíquica, emocional e espiritual
do jovem ainda se encontram em desenvolvimento, ou seja, não estão
totalmente formadas. Assim, o uso e o abuso de substâncias tornam-se
muito mais lesivos. A puberdade e a adolescência são um período
caracterizado pela necessidade de identificação com o grupo.
Se ela ocorrer com grupos problemáticos, com predominância
de comportamentos agressivos, anti-sociais ou uso de drogas, provavelmente
colocará o jovem em situações de maior risco”,
alerta.
Mas a dependência é, como Maria Heloísa define, uma
“síndrome democrática”: atinge homens e mulheres
em todas as faixas etárias, raças, credos e condições
socioeconômicas. “Historicamente, a maior demanda para uso,
abuso ou dependência de substâncias, assim como a necessidade
de prevenir e tratar, tem sido do gênero masculino. Porém,
o grande aumento da incidência desse transtorno entre mulheres,
crianças e outros grupos sociais tem impulsionado pesquisas e estudos
na tentativa de compreender, prevenir e equacionar esse grave problema,
ampliando e desenvolvendo recursos mais eficazes para prevenção,
tratamento e reintegração social entre usuários,
abusadores e dependentes de substâncias psicoativas”, comenta.
Predisposição
A diretora técnica do centro de tratamento paulista
explica que a dependência química é uma síndrome
biopsicossocioespiritual, ativada por predisposição pessoal,
associada ao uso de substância psicoativa e erro pedagógico,
ou seja, ensinar como certo algo que é errado. Um exemplo citado
pela psicóloga é o de molhar a chupeta da criança
na espuma da cerveja quando adultos bebem, “curar” o mau humor
com calmantes e realizar todas as festas e celebrações regadas
à bebida alcoólica. “Estamos enviando a mensagem subliminar
aos jovens da família que ‘só é possível
comemorar com bebidas’”, reflete.
Além de prejudicar o próprio usuário, a doença
atinge a família e amigos. “O relacionamento mais significativo
e profundo que qualquer pessoa desenvolve na sua existência é
com a família ou com o seu grupo original. Assim, a síndrome
da dependência química afeta sobremaneira a dinâmica
desse grupo, levando-o a séria disfuncionalidade. A família
também desenvolve uma síndrome paralela mais ou menos grave,
conhecida como ‘síndrome da codependência’”,
diz.
Codependente é qualquer pessoa cuja vida tenha ficado incontrolável
por viver uma relação comprometida com um dependente. É
uma síndrome definível que é crônica e segue
uma progressão previsível. Quando uma pessoa, numa relação
comprometida com um dependente, tenta controlar a bebida ou o uso de drogas
ou um comportamento compulsivo (em que é impotente), perde o controle
sobre o próprio comportamento (em que ela tem poder) e o domínio
sobre a sua própria vida.
Prejuízo
Para aqueles que acham que consumir alguma substância
uma vez ou outra não vai fazer diferença, a psicóloga
avisa que todas as drogas resultam em algum tipo de prejuízo ao
cérebro e, por conseqüência, ao organismo. “Da
nicotina do cigarro, aceita socialmente, ao temível crack, qualquer
substância psicoativa repercute negativamente na saúde do
consumidor, e o usuário de qualquer uma delas poderá desenvolver
a doença, se tiver predisposição”, alerta.
Envolvimentos espirituais
crescem com uso de substâncias
Na mesma proporção que progride a síndrome
no usuário de drogas, instalam-se os problemas espirituais. As
substâncias psicoativas danificam, progressivamente, a mente, o
corpo e o espírito, abrindo as portas para “presenças
espirituais” danosas, com o conseqüente envolvimento espiritual
que se intensifica.
À medida que a pessoa se torna escrava da substância, maior
é o envolvimento espiritual em todas as áreas da sua vida.
A síndrome da dependência leva a pessoa a buscar substâncias
cada vez mais potentes devido à tolerância. Pode iniciar
o uso com substâncias consideradas mais leves e evoluir para a utilização
de várias delas ao mesmo tempo, independentemente da sua classificação.
Prevenção é o melhor caminho
Folha Espírita – Mas o que fazer para se
manter longe das drogas?
Maria Heloísa Bernardo – Prevenção é
sempre a melhor forma de proteção. Manter-se informado sobre
as conseqüências do uso, abuso e dependência química,
adaptando a linguagem às características do grupo, talvez
seja a melhor forma de conscientização das pessoas para
exercitarem o seu livre-arbítrio, ou seja, fazer escolhas apropriadas
sobre usar ou não determinada substância. Essa orientação
é particularmente importante para os jovens, que são a população
mais vulnerável. Os profissionais de Saúde, por sua vez,
também devem se manter cientificamente informados. Enfim, os profissionais,
professores, pais e a sociedade de forma geral necessitam aprender para
informar os jovens.
FE – E para deixar de ser um dependente químico?
Maria Heloísa – A dependência química é
tratável, embora não se possa curá-la. Seus sintomas
podem ser detidos através da abstinência total de toda e
qualquer substância química que altere o humor. Além
da abstinência, a vulnerabilidade do dependente químico à
recaída pode ser controlada através de mudanças permanentes
no estilo de vida, atitudes e comportamento.
FE – No que os amigos e a família podem
ajudar?
Maria Heloísa – Educação sobre a dependência
química e codependência é fundamental para todos.
Orientação e tratamento especializado para a família
ajudam a separar a crise do dependente da crise familiar, propiciando
inicialmente o restabelecimento da comunicação entre o grupo
familiar para desenvolver um plano terapêutico.
FE – Muitos dizem que a solidão é
a melhor companhia do dependente químico. Isso é verdade?
Maria Heloísa – Sim, pois à medida que a síndrome
progride a vítima se afasta do convívio social. A família
e amigos também se afastam, devido a seu comportamento insano.
Isso leva ao isolamento completo nas etapas finais da doença.
Centro de Tratamento Bezerra de Menezes
? Matriz: rua Batuíra, 400, bairro Assunção,
São Bernardo do Campo (SP) - telefone (11) 4344-2222
? Unidade Ambulatorial São Paulo: rua Tenente Gomes Ribeiro, 57,
cjs. 54, 55 e 56, Vila Mariana, São Paulo (SP) - telefones (11)
5573-3402 e 5082-4279
? Unidade de Assistência e Reintegração Social Paulínia:
rua Hélio Polezer Júnior, 300, Parque Represa, Paulínia
(SP) - telefones (19) 3884-1016 e 3884-6369
Mais informações sobre o trabalho da entidade
no site www.bezerrademenezes.org.br
O tóxico é o irmão mais sofisticado
da cachaça, através da qual também nós
temos perdido muita gente. A fascinação pelo tóxico
é a necessidade de amor
que o jovem tem. Mesadas grandes que não são acompanhadas
de carinho e de calor humano paterno geram conflitos muito grandes. Muitas
vezes a privação do dinheiro, o trabalho digno e o afeto
vão construir uma vida feliz. (Lições de Sabedoria
– Chico Xavier, Marlene R. S. Nobre)
“Quando os pais, por qualquer motivo, não
convivem com os filhos, eles podem ser adotados pelos traficantes”
(Divaldo Pereira Franco)
“O tratamento e recuperação dessa
síndrome exige boa vontade do dependente, atenção
especializada e reformulação, baseadas em altos valores
éticos morais e espirituais” (Maria Heloísa Bernardo,
diretora-técnica do Centro de Tratamento Bezerra de Menezes)
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