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ESPIRITUALIDADE E ASSOCIAÇÃO COM
DOENÇA CARDIOVASCULAR
(matéria publicada na Folha
Espírita em dezembro de 2005)
A Folha Espírita entrevistou
o Dr. Álvaro Avezum (AME-SP), diretor da Divisão de Pesquisa
do Instituto Dante Pazzanese e um dos precursores da Medicina Baseada
em Evidências no Brasil e o Dr. Hélio Penna Guimarães
(AME-SP), membro da Divisão de Pesquisa do Instituto Dante Pazzanese
e coordenador científico da UTI da Disciplina de Clínica
Médica da Universidade Federal de São Paulo.
Comprovar cientificamente que a religiosidade pode contribuir
de maneira positiva no tratamento de pacientes acometidos por doença
cardiovascular é um desafio para os profissionais de Medicina que
apostam na vertente espiritualista, segundo o cardiologista Álvaro
Avezum, diretor da Divisão de Pesquisa do Instituto Dante Pazzanese,
que se dedica à assistência, ensino e pesquisa em Cardiologia,
em São Paulo (SP), e um dos precursores da Medicina Baseada em
Evidências no Brasil.
Embora a relação entre espiritualidade
e fatores de risco da doença cardiovascular esteja cada vez mais
evidente, o médico acredita que o caminho para sua incorporação
à prática clínica é longo. “Estamos,
ainda, na fase da promessa. Em ciência, temos de passar pela comprovação
e aplicabilidade”, disse Avezum com otimismo. O colega Hélio
Penna Guimarães, também cardiologista e membro da Divisão
de Pesquisa do Instituto Dante Pazzanese e coordenador científico
da UTI da Disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal
de São Paulo, acrescenta que alguns estudos demonstram que a religiosidade
está diretamente ligada aos fatores psicossociais considerados
de risco, associados à doença cardiovascular, principal
causa de morte no Brasil e no mundo. “As pesquisas apontam, por
exemplo, que quando adequadamente controlado o estresse, as taxas de mortalidade
podem ser reduzidas em cerca de 30%.”
Abaixo, ambos falam sobre o que está adoecendo
a sociedade, reduzindo a expectativa de vida e aumentando a incapacitação
das pessoas:
Folha Espírita – Qual
a mortalidade atual das doenças cardiovasculares e as perspectivas
dela no futuro?
Hélio Penna Guimarães – Atualmente,
as doenças cardiovasculares são a principal causa de mortalidade
no mundo, tanto para países desenvolvidos como em desenvolvimento.
Elas perfazem quase 40% de todas as causas de mortalidade, sendo que quase
70% desse excesso de óbitos está nos países não-desenvolvidos.
A Organização Mundial de Saúde estima que até
2020, se não implementarmos medidas efetivas de prevenção
e tratamento, essas taxas chegarão aos alarmantes valores de quase
40 milhões de óbitos/ano.
FE – Vocês participaram
de uma pesquisa feita em 52 países, não? Qual o objetivo
dela e quais resultados apontou?
Álvaro Avezum – O estudo chamado INTERHEART,
publicado em setembro de 2004 em um renomado periódico médico,
foi desenhado para avaliar a associação dos fatores de risco
para infarto agudo do miocárdio (IAM) em todo o mundo e quantificar
o impacto de cada fator de risco isoladamente e em combinação
sobre a população. A Divisão de Pesquisa do Instituto
Dante Pazzanese de Cardiologia coordenou esse estudo no Brasil. Ele envolveu
52 países e quase 30 mil pessoas em todo o mundo e permitiu concluir
que são nove os fatores de risco simples que estão fortemente
associados ao IAM no mundo. Esses fatores de risco são mais importantes
nos jovens, mas seus efeitos são consistentes em homens e mulheres
e em todas as regiões do mundo. As alterações de
colesterol, o tabagismo, diabetes, hipertensão arterial, obesidade
abdominal, os fatores psicossociais (depressão e estresse), o não-consumo
diário de frutas e vegetais e o sedentarismo são os fatores
relacionados à ocorrência de infarto agudo do miocárdio
em até 90% dos casos, em todo o mundo. No Brasil, em um estudo
anterior, denominado Afirmar e também realizado pelo nosso grupo,
os resultados foram muito semelhantes com um grupo de quase 2,6 mil pacientes.
FE – O papel dos fatores psicossociais
é tão grande assim?
Avezum – Sem dúvida muito relevante. O estudo
INTERHEART foi um dos primeiros a realmente se preocupar com essa análise
e conclui que fatores psicossociais como o estresse e a depressão
oferecem, quando presentes, um risco de quase três vezes mais chance
de infarto do miocárdio. Se fossem adequadamente controlados e
extintos, cerca de 32,5% dos infartos seriam evitados em todo o mundo.
FE – Em que medida a espiritualidade
influi na redução dessas doenças?
Guimarães – Estamos cada vez mais próximos
das chamadas evidências científicas sólidas e robustas
que comprovem o relevante papel que a espiritualidade tem sobre a ocorrência,
prevenção e prognóstico das doenças cardiovasculares.
O Dr. Harold Koenig, um dos pioneiros no estudo da associação
da espiritualidade e saúde, que recentemente nos abrilhantou com
sua presença em um evento em São Paulo, tem demonstrado
em suas revisões que a prática da religiosidade ou busca
pela espiritualidade promove redução da pressão arterial
e do tabagismo, maior prática de exercício, moderação
do consumo de álcool, menor incidência de depressão
ou mais rápida recuperação e maior suporte social.
Também alguns pequenos estudos com o uso de meditação
ou prece em preparação para cirurgia cardíaca demonstraram
menor incidência de arritmias (alterações do ritmo
do coração); estudos com o uso da prece intercessória
para pacientes internados em UTIs, apesar de ainda não definitivos
sob análise estatística, demonstraram tendência à
redução de óbitos. Obviamente, precisamos ampliar
e sedimentar essas evidências científicas ainda incipientes,
pois somente a confirmação de novo paradigma da real influência
da espiritualidade ou religiosidade será suficiente para a modificação
da percepção e conduta da sociedade atual, independentemente
de suas crenças.
FE – O que está faltando
nas terapêuticas preconizadas atualmente para as doenças
cardiovasculares?
Avezum – Sem dúvida, uma intervenção
mais efetiva para implementação dos resultados das pesquisas
na prática diária dos consultórios. Sabemos de forma
clara o que promove a doença cardiovascular, mas não a controlamos
efetivamente.
FE – Quais as sugestões
preventivas?
Guimarães – O controle rigoroso dos nove
fatores de risco previamente citados: controle de hipertensão,
diabetes e colesterol; manutenção da cintura abdominal abaixo
de 90cm (homens) e 80cm (mulheres); atividade física regular de
pelo menos três vezes por semana, suspensão do tabagismo,
consumo diário de frutas e vegetais e controle do estresse e depressão.
FE – Quem é muito espiritualizado
nunca vai ter doenças assim?
Avezum – Ainda temos todos um largo caminho a percorrer
em busca da espiritualidade adequada. Essa é uma questão
difícil, mas devemos lembrar que o controle dos fatores de risco
associados a doenças cardiovasculares pode reduzir a ocorrência
de infarto em até 90% dos casos, e a prática da religiosidade
ou busca pela espiritualidade parece associada com a maior tendência
ao controle de alguns desses fatores.
FE – Nos templos religiosos,
particularmente, nos centros espíritas, qual a melhor forma de
ajudar os pacientes?
Avezum – Os templos religiosos podem divulgar a
busca por hábitos de vida saudáveis como exposto acima,
controlando os fatores de risco associados. A religiosidade ou espiritualidade
pode resgatar com sua prática a lacuna que temos na abordagem dos
fatores psicossociais que citamos, que ainda aparecem como de difícil
controle pela subjetividade que lhes é associada. |