ABORDAGEM EVANGÉLICA PARA ATENDIMENTO EM SAÚDE
(matéria publicada na Folha
Espírita em agosto de 2006)
A Folha Espírita entrevista
a psicóloga Joana D’Arc Parreiras de Paulo que trabalha
no Instituto de Assistência Psíquica Renascimento, em Belo
Horizonte (MG) e é membro da Associação Médico-Espírita
de Minas Gerais (AME-MG)
Por Cláudia Santos
Folha Espírita –
O que é fundamental na relação médico–paciente
e que possibilidades ela traz?
Joana D’Arc – Existe um arsenal acadêmico
importantíssimo que é complementado pela Doutrina e fundamental
nessa relação. O canal por onde flui o Evangelho é
de alma para alma. Só aí, então, pode atingir o
coração. Os caminhos do Evangelho são os caminhos
do coração. É algo para ser sentido. E o que toca
a alma é o sentimento. Então, é nesse canal que
trabalhamos com o paciente.
FE – A Associação
Médico-Espírita segue alguma diretriz, algum projeto nesse
sentido?
Joana – Na AME-MG temos um projeto, biopsicossocioespiritual.
Este é estruturado para um ano de atendimento intensivo em regime
de grupo fechado, em que os pacientes são selecionados de acordo
com a patologia, que passa, então, a representar o tema-desafio
daquele grupo. Ao tratamento espiritual de desobsessão articulamos
o grupo terapêutico, tanto para a família quanto para o
paciente, que chamamos de “Higiene Mental”. É nesse
encontro que construímos juntos, terapeuta e paciente, novas
reflexões a respeito do significado da vida, de onde viemos e
para onde vamos, sob a orientação espírita-cristã.
Construindo juntos, crescemos juntos, plantando e colhendo esperança
e muito entusiasmo. Vamos assim aprendendo, não só com
a dor, mas também com alegria, a humildade de reconhecer os enganos
sem perder a auto-aceitação e a auto-estima, condição
indispensável para prosseguirmos em busca de nossa saúde
integral.
FE – Como é essa
abordagem com o paciente?
Joana – Ela é veiculada na relação.
Então, é muito importante que o terapeuta esteja pronto,
disponível, com boa vontade para essa abordagem. Ele deve estar
envolvido com todo respeito e aberto para construir uma relação
assim com seu paciente. Ela deve fluir num clima que vai além
das paredes do consultório, atingindo as dimensões que
são do coração. Construímos uma relação
de afeto, muito diferente da que se estabelece entre um profissional
da área da Saúde e seu paciente, em que o primeiro contém
os recursos da cura. A alma do terapeuta deve inspirar a do paciente,
tocando-a, para que o próprio paciente possa inspirar seu caminho
de cura. Os recursos evangélicos são muito importantes
para que possamos seguir esse caminho.
FE – Quais são esses
recursos?
Joana – São do próprio Evangelho.
Trabalhamos com temas que possam sensibilizar nossos pacientes. Os anos
de experiência no trabalho trouxeram-nos a inspiração
da “Mandala dos Temas”, representando todo o arsenal de
recursos espírita-cristão, essencial, que será
veiculado no tratamento, não só através da informação,
mas também através de uma relação respeitosa
e afetiva, que chamamos de atitude terapêutica cristã.
As técnicas simplesmente auxiliam. Utilizamos estas, como estratégia,
para nos aproximarmos do paciente, mobilizando-o, e para construir um
encontro terapêutico. Agora, a energia que é construída
na relação médico–paciente não dá
para apalpar. Usamos recursos fundamentais, acadêmicos, mas deve
haver “algo mais” do terapeuta. Tem a ver com a sua fé.
A fé de que a cura está no caminho de volta ao Criador,
na “real conexão da criatura com o Criador”, como
diz nosso mentor Homero. Desta forma, vamos ajudar o paciente a encontrar
esse caminho de cura. Abordamos essencialmente a ética cristã.
Todo ser compreende a ética cristã, de fazer ao outro
aquilo que você gostaria de receber. Passamos, assim, a ter uma
vivência amorosa com o paciente, construindo um circuito de “dar”
e “receber”.
FE – Vocês têm tido retorno nesse procedimento?
Joana – Sim, muito, e o retorno maior que nos
importa não é necessariamente a cura psíquica,
a cura orgânica, mas a abertura, o novo olhar que o ser passa
a ter para a vida, a nova forma de se relacionar consigo mesmo e com
o outro. As possibilidades que ele tem, respeitando seus limites, buscando
sempre auto-referência e respeito a si mesmo como filho do Criador,
aprendendo a amar a si mesmo, podendo, então, amar melhor o outro.
Tentamos incluí-lo como um ser da criação, como
um co-criador. E isso não pode ser só com informação,
só com palestras, com palavras. Isso se inspira na relação.
Juntos, paciente e terapeuta constroem esse caminho. Utilizamos muitas
técnicas de vivência. Elas não só atuam no
consciente do paciente, mas no inconsciente também. Auxiliam
o ser a acessar recursos que são internos, sua parte sábia.
Muitas vezes ele não faz contato com seu Deus interior e esses
recursos de vivência o ajudam nesse encontro, no silêncio
da sua alma, bebendo na fonte que está dentro dele mesmo. O terapeuta
inspira esse processo no paciente. Por isso, é um processo de
alma para alma. Mas, claro, o conhecimento acadêmico e da Doutrina
Espírita é fundamental.
FE – Seus pacientes são espíritas?
Joana – Nem sempre. Muitos nos procuram porque
sabem do nosso trabalho, mas outros são encaminhados por colegas
profissionais.
FE – Esse procedimento
faz parte de uma pesquisa?
Joana – A AME-MG tem esse objetivo, mas acho
que ainda não temos isso bem organizado. Nós temos alguns
profissionais que trabalham muito dentro da área mais científica,
tentando traduzir isso dentro da linguagem da ciência. Mas ainda
somos mais trabalhadores, mais terapeutas do que propriamente cientistas.
Estamos vivendo um compromisso com ênfase na pessoa. É
importante para o terapeuta incluir isso na sua formação.
Quando a gente entra nesse processo, terapeuta e paciente se tratam.
Nessa relação encontramos o caminho de cura junto com
nosso paciente. Quando terminamos um processo terapêutico como
esse e nos despedimos do nosso paciente, ele vai com novos recursos
para a própria vida.