INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA: UM NOVO PARADIGMA
(MATÉRIA PUBLICADA NA FOLHA ESPÍRITA EM JANEIRO DE 2006)
FABIANA GANCI

Na Jornada da Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP), realizada em novembro, na capital paulista, o médico generalista e integrante da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais Andrei Moreira falou sobre a infância e a adolescência sob o paradigma espírita, analisando e entendendo o espírito nessas duas fases da reencarnação. Abaixo, a íntegra da entrevista concedida sobre o tema à Folha Espírita:

Folha Espírita – Em princípio, explique para a gente o que é um médico generalista...
Andrei Moreira – O médico generalista é aquele que faz um pouquinho de tudo e muito de nada. É como saímos da faculdade, formados para atender nas áreas de Pediatria, Clínica Médica, um pouquinho de Psiquiatria. Na medicina de família e comunidade, que é a que eu pratico, a gente tem a abordagem de adultos em Clínica Médica, crianças na Pediatria, Psiquiatria, Ginecologia e Saúde Pública, atendendo a parcela que eu considero como sendo a mais carente dentre as atendidas pelo SUS.

FE – Você consegue abordar as questões de espiritualidade com essa população mais carente do SUS, que são seus pacientes?
Moreira – Consigo. Com alguns mais profundamente, com outros menos. Alguns são refratários, não aceitam. Outros aproveitam muito. Isso vai muito de como é o indivíduo, afinal de contas, é o paciente que caracteriza a consulta para nós.

FE – Qual a importância da infância na evolução espiritual?
Moreira – A infância é a porta de entrada para uma nova experiência física, é o momento em que o espírito está maleável às impressões e ao processo educacional que vai formatá-lo para um novo padrão, um novo comportamento, que vai imprimir nele novas características, novos conhecimentos, enfim, dar instrução para o conhecimento intelectual e vivência para o conhecimento sentimental, permitindo a esse espírito rever a sua trajetória até então com vistas a uma expressão melhorada, mais feliz do que ele vem tendo até aqui, até o momento.

FE – Por que ocorre essa mudança de personalidade da criança para o adolescente? Por que eles mudam tanto?
Moreira – Porque enquanto o ser está vivenciando a fase da infância, ele está sob amnésia reencarnatória, que é um esquecimento do passado e um certo torpor nas suas características e faculdades de personalidade mais profundas, para que ele esteja sob a possibilidade de uma nova impressão, através da educação que ele vai receber no lar e na escola, enfim, onde ele esteja. Na adolescência, esse passado retorna com toda a força, exatamente para dar oportunidade ao espírito de comparar o seu impulso do passado com o seu aprendizado do presente e decidir qual é o melhor para ele naquele instante. Daí a mudança.

FE – Qual é o papel dos pais nessa transição? Como eles devem agir nesse momento?
Moreira – Tanto na infância quanto na adolescência, os pais devem ser grandes amigos, observadores, atentos às características desse espírito que reencarna. Sobretudo modelos, porque se a palavra convence, o exemplo arrasta. Esses espíritos que estão reencarnados na forma de pais são espíritos que têm condições de dar uma acolhida àquele reencarnante, uma acolhida que deve estar, principalmente, baseada no exemplo das virtudes que eles desejam imprimir nos filhos. Uma educação que seja só teórica e desconectada do sentimento vai ser infrutífera.

FE – Por favor, destaque alguns aspectos importantes do Kardec educador, na área da Educação.
Moreira – Kardec bebeu nas fontes de Pestalozzi, que foi um educador da liberdade e do amor, que acolhia na sua casa, praticamente, crianças que eram muito difíceis, problemáticas. Acabou, com isso, criando um método pedagógico de respeito e de desenvolvimento integral daqueles indivíduos. Kardec desenvolveu esses mesmos conceitos na sua prática pedagógica, e, posteriormente, também teve influência nessas características a própria formação da Doutrina Espírita. Ele define que a Educação é um processo de trazer para fora ou fazer com o que o ser entre em contato com as verdades e as absorva na sua vida através da própria experiência, conhecendo tudo aquilo que aprende, vivenciando na prática, apalpando com os olhos e com os dedos as verdades daquilo que é conhecido e daquilo que é desconhecido, ou seja, da base que aquele reencarnante traz para o desconhecido, e desenvolvendo simultaneamente as faculdades morais e intelectuais, que é a coisa mais importante. Um desenvolvimento simultâneo do intelecto, mas sobretudo do sentimento.

FE – Qual a relação do médico com o ensinamento, do médico com o educador?

Moreira – O médico, em essência, deve ser um educador. A tarefa da medicina sem educação é paliativa. Ela vai gerar alívio momentâneo, mas a cura real é patrimônio do espírito. Essa cura real parte de um processo de consciência e de entendimento do que foi vivido. E o médico, como alguém que participa do processo como um incentivador e orientador em determinados aspectos, tem a oportunidade de dar um impulso de instrução e de vivência para essa pessoa que partilha com ele da experiência, levando essa pessoa a uma viagem interna de autodescoberta e autopercepção, sem que ele seja o Deus do conhecimento, que apenas determina regras, mas, assim como Kardec ensinou, levando o paciente a apalpar com os olhos e com os dedos todas as verdades, ou seja, sentir tudo aquilo que faz parte do seu processo evolutivo a partir da própria experiência. E isso pode renovar a conduta e conseqüentemente a relação desse ser com a vida, com o universo, com Deus, reconquistando a cura interior