 |
MEDO: INSTINTO OU PATOLOGIA?
(matéria publicada na Folha
Espírita em 2003)
A Folha Espírita entrevistou
a Dra Maria Julia Peres, psiquiatra e criadora da Terapia Reestruturativa
Vivencial Peres – TRVPeres e o Dr. Jaider Rodrigues de Paulo (AME-MG).
O medo é uma emoção presente em
quase todos os seres da natureza, representada por um conjunto de sentimentos
que se manifestam com grande inquietação e angústia
diante de um perigo real ou imaginário de um fato desencadeante
de ameaça, pavor, susto, perdas e dor profunda (física ou
mental), entre outros.
Ele é expressado nos seres humanos por reações
corporais como o susto, olhar espantado, boca seca, taquicardia e sudorese,
entre outros, traduzindo o incômodo físico e mental que provoca.
Sua presença excessiva é um dos grandes fatores de angústia
para o ser. “O medo, em si, não constitui uma patologia e
sim, um comportamento de cautela para maior segurança do indivíduo.
Ele é racional, perfeitamente controlável, não interfere
nas atividades diárias, nem desencadeia sintomas físicos,
psicossomáticos”, declara a psiquiatra e especialista em
terapia regressiva Maria Júlia Peres, criadora da Terapia Reestruturativa
Vivencial Peres – TRVPeres. “Ele é ontológico
na raça humana, uma reação emocional a um agente
externo, o qual é percebido como agressor à integridade
física do indivíduo”, completa o psiquiatra Jaider
Rodrigues de Paulo, da Associação Médico-Espírita
de Minas Gerais (AME-MG). Para a ciência psíquica, segundo
ele, um dos diferenciais com a ansiedade é o fato de ele ter um
objeto real e ela nem sempre. “O medo se caracteriza a partir de
uma vivência objetiva, como, por exemplo, de animais, altura e escuro,
entre outros. A ansiedade expressaria mais os fantasmas internos”,
completa.
De acordo com Jaider, o medo se origina de quatro vertentes.
A primeira seria criada pelo instinto de conservação, evitando
que o indivíduo se exponha a perigos desnecessários. “Se
a pessoa sentisse dor e não tivesse a presença do medo,
provavelmente não aprenderia a evitar novos fatos semelhantes,
que a levaríam a senti-la, ou seja, não fixaria o aprendizado”,
aponta. Este é um fator positivo do medo, segundo o médico.
“Dentro deste pensamento, temos, também, o medo do desconhecido,
como da imensidão do mar e do cosmo, ou quando viajamos para algum
local sem referências”, lembra.
A segunda vertente, de acordo com Jaider, seria fruto
do complexo de culpa, originado de atos que julgamos delituosos, em vidas
passadas ou nesta própria. “É quando o culpado instala
em sua intimidade o tribunal da consciência, o pior de todos, criando
o seu inferno particular, despertando este sicário de todos nós,
o medo”, informa. A terceira vertente seria fruto dos sofrimentos
atrozes que experimentamos nas zonas inferiores da erraticidade, quando
brinquedos de inteligências perversas. “Nesses casos, seriam
os egressos do suicídio, do homicídio, os viciados de toda
sorte, os quais não fazem nenhum movimento para a sua redenção.
A mente destas pessoas é povoada de imagens apavorantes que, mesmo
depois de serem resgatadas pelas mãos dos obreiros do senhor, continuam
como cruéis prolongamentos daqueles momentos infelizes que a reencarnação
não consegue abafar”, declara. “Deparando-se com situações
que guardam ressonância com este passado, podem despertá-lo,
criando campo mental propício para a emersão no presente,
daquelas situações pretéritas traumatizantes. São
pessoas que aportam a uma nova reencarnação trazendo, em
sua estrutura psíquica atual, o temor constante, o qual, muitas
vezes, dirige seus atos”, completa.
Mas o medo pode ser conseqüência de educação
equivocada, quando os familiares, no intuito de controlar as suas crianças,
criam em suas mentes figuras de monstros, como de assombração,
bicho-papão e demônios, sem saberem que estão formando
clichês mentais torturantes, que podem perturbá-las. “O
indivíduo, quando vive sob o guante do medo, é uma pessoa
basicamente insegura, assustada e raivosa. Estes sentimentos podem torná-la
agressiva, retraída, aparentemente pouco responsável e,
às vezes, paradoxalmente temerária”, diz.
Fobia: transtorno neurótico
A fobia é um transtorno neurótico, relacionado ao estresse,
que apresenta reações somatoformes (antes chamadas de psicossomáticas)
e está caracterizada na CID 10 (Classificação Internacional
das Doenças, itens F40 a F48). Segundo a psiquiatra Maria Júlia
Peres, criadora do Instituto Nacional de Pesquisa e Terapia Vivencial
Peres, de São Paulo (SP), ela é um medo patológico,
exagerado, persistente e irracional, que ocorre em relação,
entre outros, a objetos (facas, objetos pontiagudos etc), atividades ou
situações (sair ou viajar sozinho, medo de multidões,
altura, lugares fechados, lugares públicos e de ser foco de atenção
etc), coisas específicas (animais e insetos), forças naturais
(tempestades, relâmpagos, enchentes, terremotos etc), “hospitalares”
(sangue, injeção, cirurgia, ferimentos, vômitos etc)
e situacionais (elevadores, túneis, aeroportos etc), entre outros.
A literatura médica cita mais de 500 modalidades de fobias.
Entre as reações apresentadas estão
os sintomas de ansiedade, que se apresentam antes e durante o aparecimento
da situação temida. São eles as palpitações
(aumento da freqüência cardíaca), sudorese, tremor;
dificuldade para respirar, náusea ou desconforto abdominal, desequilíbrio,
tontura, atordoação, medo de morrer. “Pelo menos três
dos itens citados devem aparecer no verdadeiro diagnóstico de fobia.
O paciente apresenta angústia marcante, causada pelo sintoma, e
evita situações fóbicas, que o levam à ansiedade,
que ele próprio reconhece que são excessivas e irracionais,
como medo das imagens do objeto fóbico e das situações
que aparecem em televisão, revistas e outros”, afirma Maria
Júlia.
Origem
As fobias são classificadas de várias formas e por várias
correntes. Para os chamados “comportamentalistas”, segundo
a psiquiatra, são condutas adquiridas em experiências traumáticas
ampliadas por reações excessivas, desencadeadas por estímulos
que as cercam ou pela insegurança devido à ausência
da mãe. Elas podem surgir em qualquer época da vida, em
que tenha havido um evento doloroso, que tivesse sido marcante para o
paciente. Para os “psicanalistas”, acrescenta, o mecanismo
causal da fobia é um conflito intrapsíquico inconsciente
não resolvido, geralmente de origem edipica (menino que deseja
sexualmente a mãe, mas teme a punição do pai, na
forma de castração – vide Freud em O Pequeno Hans).
Neste caso, o paciente tem medo das suas pulsões e as substituiu
por um objeto. Por não poder assumi-las e por negar sua realidade,
desloca suas angústias para um objeto simbólico (no exemplo
freudiano do Pequeno Hans, ele desloca o medo de punição
do seu pai para o medo de um objeto externo, passando a ter fobia de cavalos.
Assim, a evitação de cavalos permitia a evitação
da ansiedade causada pelo conflito intrapsíquico, a raiva do pai).
Pode surgir também em qualquer época da vida.
Para os “neurobiologistas”, a fobia tem
origem em anormalidades neuroquímicas, que ocorrem no transtorno
de ansiedade. Envolvem os sistemas Gaba, noradrenérgico e serotoninérgico.
As áreas cerebrais do lobo frontal e do sistema línbico
estão envolvidas nesta fisiopatologia e há evidências
de que os fatores genéticos têm influência na origem
destes problemas, ocorrendo em cerca de 20% de parentes de primeiro grau,
principalmente de sexo feminino. A concordância para gêmeos
monozigóticos é de 50% contra 15% para os dizigóticos.
TRVPeres
Na visão dos “terapeutas em TRVPeres”, a fobia
pode aparecer em vários períodos da vida atual e em suposta
vida passada. Em geral, são resultantes do contato do paciente
com algum fato marcante ocorrido em algum período do seu passado,
que ficou reprimido em sua mente inconsciente e bloqueado pela consciente.
Com este bloqueio consciente a fobia se torna irracional e se manifesta
com atitudes evitativas em relação ao objeto ou situação
causadores da mesma. “Assim, um paciente que tem fobia em dirigir
carro, pode ter sofrido um acidente de automóvel enquanto estava
no útero materno. Outro pode ter fobia de galinha, porque, quando
criança, foi atacado quando tentou pegá-la para brincar”,
conta Maria Júlia.
“Um paciente obeso, com fobia de solidão
e de ser rejeitado, em suas vivências reestruturativas em seções
de TRVPeres, relatou ter lembrança, que reconstruiu e vivenciou
da cela de uma prisão durante muitos anos, de ter desencarnado
solitário, triste, abandonado e faminto. No momento mais traumático
dessa sua experiência vivencial, elaborou uma decisão, com
padrões negativos e repetitivos de comportamento que, supostamente,
o levaram as suas fobias atuais. Esta decisão foi a de ‘nunca
mais passar fome´, daí a razão de sua obesidade”,
lembra. “Estou sozinho e abandonado” e “minha vida é
terrivelmente triste” foram a razão da fobia de solidão
e rejeição. Porém, segundo ela, o paciente elaborou
uma redecisão que, com a prática concreta, reestruturou
sua vida para uma situação adaptativa ao seu momento atual.
Especialistas recomendam tratamento
O tratamento básico do medo, segundo o psiquiatra Jaider
Rodrigues de Paulo, é a psicoterapia em suas várias correntes,
principalmente, se forem voltadas para o resgate da dignidade humana.
“A propósito, a hipnoterapia ericsoniana e a terapia de vivências
passadas estariam bem indicadas, principalmente quando há um sintoma
claro desencadeante de um quadro específico, como, por exemplo,
o medo de altura, de animais, de locais fechados e de viagem”, informa.
“A real terapia do medo, no entanto, em um processo
terapêutico bem orientado, é o esforço de transformação
interior, pois só ele é capaz de nos proporcionar a paz
íntima, imunizando-nos contra os males internos e externos. Somente
a busca sincera do real sentido da vida e a integração com
este, no cotidiano, serão capazes de libertar o indivíduo
dos equívocos da existência, das ilusões e adentrá-lo
na intimidade de si mesmo, buscando o Deus interior, o único capaz
de libertá-lo em definitivo das ameaças do existir”,
completa.
Geralmente, segundo a psiquiatra Maria Júlia
Peres, as fobias têm cura. “Mas isso vai depender da etiologia
de sua modalidade, do tipo de personalidade de seu portador, do tempo
em que ela está instalada no paciente e da existência concomitante
de outras enfermidades no paciente”, avalia. “Elas devem ser
tratadas, mas cada caso é um caso e não se deve generalizar
um tratamento global para todas elas e sim, encaminhar o paciente para
um terapeuta experiente para fazer, se for indicado, uma psicoterapia
adequada e receitar uma complementação medicamentosa, se
for necessário”, complementa.
Paralelamente ao tratamento, a psiquiatra também
recomenda práticas que considera úteis, como, por exemplo,
o relaxamento, a meditação e o yoga, distrações
saudáveis e prática comedida e inteligente da religiosidade.
E deve-se evitar programas de TV e filmes “pesados” que contenham
violência, filmes de guerra e crimes. |