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NEUROBIOLOGIA DA FÉ
(matéria publicada na Folha
Espírita em outubro de 2005)
A Folha Espírita entrevistou
o Dr. Ricardo Leme, neurocirurgião.
Médico neurocirurgião, Ricardo Leme, 37
anos, é também doutor em Ciências, na área
de Anatomia Funcional, pela USP. No V Congresso Nacional da Associação
Médico-Espírita do Brasil (Mednesp), que aconteceu de 26
a 28 de maio, em São Paulo (SP), ele tratou do tema Neurobiologia
da Fé, destacando que a fé pode assumir diferentes nuances,
na dependência da formação e da visão existencial
de cada pessoa. Abaixo, os principais pontos abordados:
Folha Espírita – O
que é a neurobiologia da fé?
Ricardo Leme – Uma primeira observação
a ser feita, que é de primordial importância, é notarmos
que os fenômenos neurobiológicos (relacionados ao sistema
nervoso e à vida) e os pertinentes à fé pertencem
a diferentes realidades. Enquanto os primeiros estão situados em
uma realidade física (fenomênica), os segundos pertencem
a uma realidade que podemos chamar de psíquica (numinosa). Devemos,
portanto, ser cuidadosos em qualquer tentativa de conciliação
e de interpretação, quando fenômenos que ocorrem em
diferentes realidades se tornam objeto de estudo da ciência. Os
métodos científicos tradicionais ou da ciência acadêmica,
buscam, no momento atual, fenômenos reprodutíveis e quantificáveis,
numa tentativa, muitas vezes reducionista, de traduzir diferentes realidades
a uma linguagem comum. Estudos neurobiológicos, que envolvem o
desvendar do funcionamento do sistema nervoso, representam parte considerável
da literatura científica nos dias atuais. O desenvolvimento tecnológico
permite cada vez mais que se decomponham, se quantifiquem e até
mesmo se identifiquem substâncias novas, o que é muito desejável.
No entanto, alguns seres humanos estão apenas começando
a desconfiar que talvez o desenvolvimento tecnológico esteja carecendo
de algo, que pode ser o pequeno detalhe que esteja faltando para um funcionamento
mais harmonioso da humanidade como um todo. O estudo da neurobiologia
da fé talvez possa ser uma ferramenta a mais na busca desse algo.
FE – Os estudos que vêm
sendo feitos estão no caminho certo?
Leme – Para muitos, estudar a neurobiologia da
fé consiste em mapear o encéfalo quanto a áreas que
estão ou não ativas durante uma experiência religiosa,
a fim de localizar a fé no corpo humano e, assim, explicá-la.
Não podemos negar a importância desses estudos. No entanto,
propostas de novas formas de pensar são altamente desejáveis,
principalmente quando o objeto de estudo envolve a fé, algo ainda
tão pouco compreendido. Essa pouca compreensão envolve não
apenas as diferentes formas como as pessoas expressam a fé, mas
também e, principalmente, seus efeitos, que muitos presenciam e
que às vezes preferem calar a arriscar conhecer sua fonte geradora.
Assumir a condição de não saber e se permitir estar
aberto para todas as possibilidades são as primeiras condições
necessárias para o interessado em aprender sobre qualquer assunto
e, de maneira especial, esse, que envolve estes dois grandes campos, que
são a Neurobiologia e a fé. Ainda hoje, se observarmos a
literatura científica, é notável a distância
que separa pesquisas na área da Medicina daquelas realizadas nas
disciplinas conhecidas como básicas, como a Matemática,
a Física e a Química, para exemplificar algumas. Essa distância
faz com que muitos dos modelos desenvolvidos em pesquisas médicas,
por exemplo, não levem em conta as descobertas mais recentes no
campo da Física. Em um primeiro momento isso pode parecer irrelevante,
no entanto, estudar nosso universo a partir de um modelo baseado na Física
Clássica ou de um baseado na Física Relativística
Quântica pode nos levar a conclusões antagônicas.
FE – Por que é importante
pesquisar a fé?
Leme – Nos tempos atuais, apesar da enorme quantidade
de informações que nos chegam diariamente, é muito
comum que as pessoas vivam com uma leve sensação de que
algo está faltando ou de incerteza. De maneira geral, as religiões
se propõem a preencher essas lacunas de forma a dar algum sentido
ou significação para essas vidas que buscam um sentido.
Apesar das inúmeras propostas que tentam explicar o processo da
gênese do ser humano e da veemência com que algumas pessoas
afirmam ser portadoras da verdade, até o presente momento a resposta
para o significado existencial permanece velada. As pesquisas sobre a
fé podem contribuir muito para que as pessoas possam encontrar
por si mesmas, e não por terceiros, possíveis significados
para suas existências. Estudos no campo da Física Quântica
sugerem que nossas escolhas, como produtos da consciência, interferem
de forma decisiva na maneira como a realidade física se manifesta.
Um místico chegando a essas conclusões não surpreenderia
muitos de nós, mas um físico, a partir de demonstrações
baseadas em ferramentas da nossa própria dimensão material,
é algo maravilhoso.
FE – É como se a pessoa
fosse uma peça de um grande quebra-cabeça?
Leme – Exatamente. E como tal, tivesse a oportunidade
única de se posicionar dentro do quebra-cabeça montado.
No entanto, enquanto essa pessoa executa o que esperam que ela faça,
ela pode estar negligenciando o que ela realmente está aqui para
fazer. Algo que só ela pode saber, pois é a portadora dessa
semente e tem a responsabilidade de fazê-la germinar. Simplificando,
em outras palavras: a prática espiritual pode assumir um caráter
exotérico (do grego tà exô – as coisas exteriores)
ou esotérico (tà esô – as coisas interiores).
No primeiro caso, a característica é a existência
de alguma pessoa, objeto, ídolo, enfim, algum símbolo fora
do praticante para o qual se dirige a prática. No caso do esoterismo,
a prática é de dentro para fora, o templo é interno
e o caminho é solitário e, em alguns casos, pode até
mesmo ser árduo. Tanto as práticas exotéricas, que
atingem grandes massas de pessoas, quanto as esotéricas, são
importantes e devemos evitar de ver uma como sendo superior ou melhor
que a outra. Muitas vezes, para a pessoa chegar à prática
da espiritualidade em essência (esoterismo), é necessário
um primeiro contato com algum grupo religioso (exoterismo), seja ele qual
for. A importância de se pesquisar a fé é máxima,
uma vez que pode permitir que as pessoas entrem em contato com realidades
que ninguém mais além delas mesmas poderia fazê-lo.
FE – O conceito da fé
pode ser visto de diferentes formas? Por quê?
Leme – Eu acredito que sim, pois cada pessoa é
diferente da outra e, portanto, existirão tantas formas diferentes
de ver quanto o número de pessoas. A linguagem verbal que dispomos
para comunicação, sem que possamos perceber, impõe-nos
sérias limitações. Apesar de muitas vezes acreditarmos
que estamos falando e passando claramente uma idéia, o papel do
receptor é fundamental, uma vez que ele pode interpretar nossas
palavras de acordo com os conceitos que tem já estabelecidos. Existe
um pensador russo chamado Ouspenski, que propõe uma classificação
do homem (ser humano) em sete tipos diferentes. Claro que toda classificação
pode ser limitante, mas elas ainda são necessárias até
que cada um de nós aprenda a pensar por si próprio. Para
Ouspenski, a palavra homem não admite variação ou
gradação alguma entre aquele que não está
consciente e nem suspeita, entre o que luta para se tornar consciente
e o que se tornou plenamente consciente. A mesma palavra é usada
para designar todos os tipos de homens. Parece muito óbvio, portanto,
que dependendo do nível consciencial de cada pessoa, a fé
vai ser vista, compreendida, trabalhada e exercitada de formas diferentes.
FE – Que exames vêm
sendo usados para o estudo desses fenômenos?
Leme – Vários estudos estão em desenvolvimento
na tentativa de associar as experiências religiosas a regiões
específicas do encéfalo. Os exames mais utilizados nessa
metodologia são o eletroencefalograma (EEG), a tomografia por emissão
de fóton simples (SPECT), a tomografia por emissão de pósitrons
(PET), a ressonância magnética (RM) associada ou não
ao PET e a RM funcional. Outra importante área de estudo utiliza
a dosagem de determinadas substâncias no sangue de pessoas que passaram
por experiências espirituais. Muitas dessas substâncias são
anticorpos, como, por exemplo, imunoglobulinas presentes na saliva e interleucinas
no sangue. Uma vez que está cada vez mais bem caracterizado o funcionamento
conjunto dos sistemas nervoso, endócrino e imunológico,
tem sido possível se observar o efeito da prática espiritual
sobre esses sistemas, a partir de vários modelos experimentais
relacionados não apenas a doenças, mas também ao
processo de envelhecimento.
FE – Alguma metodologia específica?
Por quê?
Leme – Cada estudo propõe metodologias específicas
e essa é uma questão crucial que muitas vezes nos passa
despercebida quando tentamos interpretar esses estudos. As metodologias
são tão específicas, as condições de
laboratório são tão controladas, algumas variáveis
são padronizadas a tal ponto, que esse mesmo rigor acaba se voltando
contra a própria proposta da ciência ou da pesquisa. Isso
ocorre, pois, a partir dos resultados obtidos em laboratório, sobre
modelos controlados, o próximo passo do cientista é, por
meio de processos de indução e de generalização,
aplicar aqueles achados ao comportamento de sistemas abertos, na população
de seres humanos que vivem fora dos laboratórios. Muitas vezes,
os estudos científicos trazem resultados que oferecem dificuldade
para serem conciliados. Por exemplo, enquanto alguns pesquisadores propõem
a associação da experiência religiosa e da espiritualidade
à ativação de circuitos neurais específicos
dos lobos temporais do cérebro, outros demonstram que a ativação
encefálica observada em determinadas experiências espirituais
ocorre em todo o cérebro indistintamente. Devemos ser muito cuidadosos
ao interpretar descobertas novas, pois muitas não resistem à
prova do tempo. |