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"OS MÉDICOS DEVERIAM ORAR MAIS PELOS
SEUS PACIENTES E ANTES DE QUALQUER PROCEDIMENTO TÉCNICO!"
(matéria publicada na Folha
Espírita em setembro de 2005)
Folha Espírita entrevista
o Dr. Gilson Luís Roberto (Presidente da AME-RS), homeopata
Gilson Luís Roberto, médico com formação
em Psicologia Analítica Junguiana e Homeopatia e presidente da
Associação Médico-Espírita do Rio Grande do
Sul, falando da espiritualização no atendimento hospitalar:
Folha Espírita - O aspecto
espiritual é levado em conta com pacientes internados?
Gilson Luís Roberto - Na maioria dos pacientes
internados o aspecto espiritual é negligenciado, exatamente no
momento em que essas necessidades são maiores, quando o paciente
sente-se ameaçado e inseguro, onde reflexões como morte,
castigo divino, culpas, necessidade de recolhimento e oração,
entre outras, surgem com mais força requisitando maior atenção
e um olhar cuidadoso para esses aspectos.
FE - Por que esse fator é
importante para o paciente? Em quais circunstâncias?
Roberto - A espiritualidade faz parte do psiquismo humano,
necessitando da mesma atenção que se dá à
saúde corporal e aos demais aspectos psíquicos como a inteligência
e a sexualidade.
A humanização do atendimento médico-hospitalar, baseado
no respeito ao paciente, deve contemplar todas as suas necessidades físicas,
emocionais, sociais e espirituais, que não estão dissociadas,
favorecendo uma recuperação mais rápida e um atendimento
mais humano.
Como a espiritualidade é algo inerente ao psiquismo humano, em
qualquer ocasião cabe o olhar respeitoso e atencioso do fator espiritual,
principalmente nos momentos de desesperança e insegurança
provocados pela doença e pela solidão.
FE - A espiritualidade ajuda na
recuperação do paciente internado?
Roberto - Sem dúvida! Tanto a espiritualidade
intrínseca como a espiritualidade extrínseca.
A pessoa espiritualizada, que busca desenvolver a sua religiosidade através
de uma prática espiritual sincera e verdadeira, por si só
apresenta grandes vantagens na forma como enfrenta e administra suas dificuldades,
ensejando uma atitude de profunda fé e calma perante os percalços
da vida física. Isso é um verdadeiro antídoto contra
o estresse, a loucura e o desespero. Além disso, as pesquisas médicas
demonstram que práticas como a oração e a meditação
fortalecem o sistema imunológico, favorecem a recuperação
do paciente, diminuam o uso de anestésico e aceleram a cicatrização
cirúrgica. Referente à espiritualidade extrínseca,
poderíamos afirmar que a espiritualidade amiga está sempre
presente, apoiando a nossa mais completa recuperação da
saúde física e, principalmente, da saúde espiritual.
Aí a importância da oração intercessória.
Infelizmente as nossas atitudes internas mais dificultam do que favorecem
o auxílio da espiritualidade, que, mesmo assim, permanece presente
em auxílio constante. Por isso a necessidade de nos voltarmos mais
para os aspectos espirituais, favorecendo, assim, a nossa própria
cura. O que observamos, na verdade, é a falta de ambiente e receptividade
que favoreça a ação da espiritualidade. Tanto sobre
os aspecto de despreparo do paciente quanto do médico.
Há se os médicos orassem mais pelos seu pacientes e antes
de qualquer procedimento técnico!
FE - Como é espiritualizar
e humanizar o atendimento?
Roberto - O processo de humanização é
bastante amplo e complexo. Envolve a administração do hospital,
o cuidado com os seus funcionários, passa pela preparação
técnica e humana do profissional que presta o atendimento e acaba
na forma como olhamos o paciente e seus familiares, buscando sempre uma
visão integral e humana em cada um. Para realizarmos esse atendimento
humanizado, necessariamente teremos que nos voltar para os aspectos espirituais,
favorecendo a sua prática e dando espaço para que isso aconteça.
Isso se refere tanto ao diálogo com o paciente sobre as suas crenças
e assuntos que lhe preocupam ligado a espiritualidade (medo da morte,
culpas etc.), como possibilitar prática de atividades espirituais
que possam fortalecer sua fé e favorecer a sua recuperação,
desde a oração e meditação até o toque
terapêutico, que nós espíritas chamamos de passe ou
imposição das mãos. Quem pretende explicar a existência
dos hospitais como uma organização destinada apenas a tratar
do corpo biológico se equivoca, cometendo uma redução.
Ainda que nos hospitais a ênfase é a dada aos processos curativos
que operam sobre o corpo biológico, eles mantêm sua condição
de produto social e de espaço de trocas intersubjetivas. Trocas
que acontecem diariamente e que envolvem o mundo interno de cada um e
suas trocas com o mundo de fora. Em relação aos pacientes,
a humanização envolve a disponibilidade do profissional
em ouvi-los com a devida atenção, respeitando o que eles
têm para nos dizer. Aliás, o termo respeitar vem do latim
respectaire, que significa olhar de novo, olhar com mais atenção.
Para que o sofrimento humano seja realmente atenuado e as percepções
de dor ou de prazer sejam humanizadas, é preciso que as palavras
que o sujeito expressa sejam reconhecidas pelo outro. Em outras palavras,
humanizar é buscarmos a capacidade de nos relacionarmos uns com
os outros, o que encontramos de uma forma plenificada nas palavras de
Jesus em seu Evangelho, quando nos recomendou que amássemos uns
aos outros como a si mesmo.
FE - Temos exemplos no Brasil? E
no mundo?
Roberto - Hoje se fala muito em humanização
no mundo todo. Nos cursos de pós-graduação é
comum essa matéria estar presente. Aqui no Brasil o Ministério
da Saúde instituiu em 2001 o Programa Nacional de Humanização
da Assistência Hospitalar para a rede hospital do SUS. Entre as
várias campanhas de humanização que existem salientamos
o do parto humanizado, o do atendimento à criança de baixo
peso e a campanha “Cuidar de quem Cuida”. Embora muitos hospitais
no Brasil já tenham aderido ao programa do Ministério da
Saúde, ainda é grande a dificuldade de se implantar a humanização
hospitalar, que esbarra na falta de uma cultura interna sobre o assunto
e no pouco envolvimento dos médicos. No Hospital Espírita
de Porto Alegre iniciamos um projeto de humanização hospitalar
que contempla o atendimento espiritual, através da Evangelhoterapia,
palestras doutrinárias e fluidoterapia, aos funcionários,
pacientes e familiares. |