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MELATONINA E DOENÇAS NEUROLÓGICAS
Por Dr. Mario F. P. Peres
As mudanças comportamentais que ocorrem de acordo
com o ritmo de 24 horas nos seres vivos é uma das características
mais proeminentes da vida no planeta Terra. O sistema nervoso, tanto em
organismos simples quanto complexos, se desenvolveu ao longo dos milênios
para atender às demandas de variações tempo dependentes
relacionadas ao ciclo claro-escuro. A glândula pineal e a melatonina
têm importância fundamental nos mecanismos de adaptação
do organismo ao meio ambiente, cuja insuficiência pode estar relacionada
com a gênese de diversos processos patológicos, incluindo
as doenças neurológicas. A melatonina age como um transdutor
neuroendócrino, transformando as informações externas
referentes ao ciclo noite-dia em sinais bioquímicos que modulam
a organização tempo-dependente de funções
autonômicas, neuroendócrinas e comportamentais (Arendt, 2003).
A melatonina (N-acetil-metoxitriptamina) foi caracterizada
em 1958, é uma indoleamina conhecida hoje como o maior produto
secretório da glândula pineal, que é um órgão
de linha média no cérebro, de até 8mm, localizado
abaixo do esplênio do corpo caloso.
A regulação da secreção de
melatonina na pineal é singular, diferente de outras glândulas,
ela não é influenciada por outros hormônios secretados
por outras glândulas ou células, e sim, o grande regulador
da produção de melatonina é o ciclo claro/escuro,
dia/noite ambiental, sendo um órgão final do sistema visual.
A melatonina é produzida somente durante a noite, a luz tem efeito
paradoxal na sua produção, estimula quando é recebida
de dia e inibe à noite. O núcleo supraquiasmático
no hipotálamo (que constitue o relógio biológico)
recebe a informação luminosa via axônios do trato
retino-hipotalâmico e através da norepinefrina, via receptores
beta-adrenérgicos, estimula a produção de melatonina
no pinealócito.
A secreção de melatonina diminui com a
idade, portanto uma série de eventos biológicos ligados
ao envelhecer podem ser relacionados com esta diminuição.
Outros aspectos importantes da melatonina incluem o seu efeito oncostático,
sua interação com o sistema imune, gonadotrófico,
seu potente efeito antioxidante, sua modulação do sistema
dopaminérico, serotoninérgico, sua potencialização
da analgesia opióide e da neurotransmissão de GABA, sua
implicação na produção de óxido nítrico
e controle neurovascular.
Várias são as doenças do ritmo biológico,
também chamadas de dissincronoses. Podem ser de origem externa
ou ambiental, devido ao estilo de vida do indivíduo, tal como na
síndrome dos trabalhadores em turno trocado, no jet lag (distúrbio
secundário ao deslocamento rápido de fuso horário)
e na mal-adaptação à mudança do horário
de verão/inverno. A síndrome do atraso e avanço da
fase de sono, os distúrbios de ritmo em cegos, e a síndrome
de Smith Magenis têm origem endógena. Outras doenças
como a depressão sazonal, depressão bipolar, esclerose múltipla,
síndrome pré-menstrual, enxaqueca e cefaléia em salvas
apresentam marcado componente cronobiológico, com uma variação
nítida de seus sinais e sintomas de acordo com ritmos circadianos
ou circanuais .
Diversas doenças neurológicas, além
naturalmente dos distúrbios de sono, sofrem influência clínica
relevante dos ritmos biológicos, tais como as cefaléias,
epilepsia, demências, doenças neurovasculares, extrapiramidais,
neuromusculares, desmielinizantes e neoplasias.
Algumas cefaléias apresentam nítida ritmicidade
circadiana como a cefaléia hípnica e a cefaléia em
salvas, outras com variação circanual, a cefaléia
em salvas e a enxaqueca cíclica, e por último, a enxaqueca
menstrual com ritmicidade mensal.
Muitos efeitos biológicos da melatonina a caracterizam
como uma potencial candidata a fisiopatologia e tratamento da enxaqueca.
Seus efeitos são de potencializar o GABA, inibir o glutamato, varrer
óxido nítrico, modular ação da serotonina,
dopamina e analgesia opióide, agir como anti-inflamatório,
além de ter estrutura molecular à indometacina, molécula
de muito interesse na área das cefaléias. Recentemente,
mostramos que a melatonina 3mg foi eficaz na prevenção da
enxaqueca.
Na enxaqueca, níveis diminuídos de melatonina
e alteração na sua curva de secreção foram
detectados. Clinicamente, crises podem ocorrer à noite, mudanças
de ritmo de sono desencadeiam crises de enxaqueca, pacientes com enxaqueca
dormem menos, têm latência maior, e mais despertares noturnos.
Em estudo por nós realizado, foi observado em pacientes com enxaqueca
crônica alteração dos níveis de melatonina
com avanço do seu pico, níveis menores em insônia,
apontando para uma disfunção cronobiológica.
Outro estudo em 200 pacientes com enxaqueca episódica
e crônica revelou que 93 pacientes (46,5%) relataram crises após
mudarem seu horário de sono, 28 pacientes (14%) relataram trabalho
em turno trocado, 86% com piora da cefaléia. Oitenta e seis pacientes
(43%) relataram frequentes viagens cruzando fusos horários, 79%
com piora da cefaléia.
Cefaléia após trabalho em turno trocado
correlacionou com fadiga e queixas de memória. Cefaléia
após viagem cruzando fusos horários correlacionoou com queixas
de concentração e memória. A fase de sono (22:22
hs +- 01:17) esteve significativamente atrasada (22:46 hs +- 01:20 hs)
p<0,001, sendo que 108 pacientes (54%) mudaram a fase de sono, variando
de -02:30 hs to + 05:00 hs. A maioria dos pacientes (75, 69%) atrasaram,
enquanto 33 (31%) avançaram a fase de sono. Atrasos ou avanços
maiores que 02:00 hs representaram 12,5% dos pacientes .
Na cefaléia em salvas, há importância
da melatonina e ritmicidade bem estabelecida. Um estudo duplo-cego controlado
placebo mostra que a melatonina é superior a placebo em cefaléia
em salvas episódica e crônica. Os níveis de melatonina
encontram-se diminuídos em pacientes com cefaléia em salvas.
A relação entre cefaléia em salvas e aumento de temperatura,
é provavelmente mediada pela alteração da secreção
de melatonina.
Em epilepsia, a variação circadiana é
também importante. Em geral crises generalizadas tendem a ocorrer
mais durante o dia, enquanto crises secundariamente generalizadas ocorrem
mais durante o sono. A dependência das crises em relação
ao tempo diminuem com a idade, juntamente com a diminuição
da secreção da melatonina. A melatonina mostra ação
antiepiléptica tanto em modelos experimentais quanto como em humanos,
com provável mecanismo gabaérgico. Em pacientes com demência,
o aparecimento de agitação no final do dia, o fenômeno
de “sundowning” vem sendo tratado com sucesso melatonina. Níveis
anormais de melatonina podem aparecer já na fase pré-clínica.
Em modelos experimentais de Alzheimer, observou-se aumento da sobrevida
e diminuição das lesões patológicas.
A melatonina tem potente ação varredora
de radicais livres, tendo importância como substância neuroprotetora.
Em modelos experimentais de isquemia, houve redução da área
afetada com a sua administração, além de propiciar
diminuição do edema, melhor recuperação de
déficits neurológicos. Ocorre também no acidente
vascular cerebral uma variação sazonal e circadiana dos
eventos.
Melatonina modula a ação da dopamina, inibindo
a sua liberação, desta forma potencialmente interfere em
distúrbios do movimento. Há estudos mostrando alterações
dos níveis de melatonina em doença de Parkinson, benefício
em discinesia tardia, e devido a sua ação neuroprotetora,
pode atuar como adjuvante no tratamento da doença de Parkinson.
Distúrbios comportamentais do REM em doença de Parkinson
e demência de Lewy tiveram melhora com o uso de melatonina.
A interação das doenças neurológicas
com os efeitos biológicos da melatonina consiste em uma avenida
de investigação científica, com uma potencial perspectiva
de melhor entendimento dos mecanismos fisiopatológicos e de um
manejo terapêutico mais adequado. |
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